MOBILIDADE RURAL: O TEMA QUE IMPACTOU A TELEDRAMATURGIA NOS ANOS 1988 E 1989

 

Nada seria mais justo e prático do que iniciar nossas postagens com a análise de um tema que tem a ver diretamente com o cotidiano de um dos autores do blog: o universo rural. A questão escolhida para reflexão é um conceito relativamente novo e pouco debatido entre intelectuais críticos e telespectadores fãs das novelas brasileiras. Certamente também passa um pouco batida pelos nossos grandes autores, e despercebida na maioria dos textos, roteiros, direções e interpretações de novelas tidas como rurais. Trata-se da questão da MOBILIDADE RURAL, que ao contrário da urbana não teve no Brasil nenhum movimento político reivindicatório de igualdade de direitos por passe livre, transporte digno e acessibilidade universal. Porém, duas novelas globais, Fera Radical, de Walther Negrão, e O Salvador da Pátria, de Lauro César Muniz, curiosamente exibidas em anos consecutivos (1988 e 1989) marcaram época por apresentarem dramas de altíssima densidade em cenários realistas e integradores de espaços rurais e urbanos.                                                                                                

Mais de 30 anos de teledramaturgia depois, essa dobradinha de novelas rurais realistas do período de 1988-1989, em pouco ou nada foi superada. De forma absolutamente inédita e inovadora (e infelizmente, não mais repetida, inspirada ou retratada sob a mesma ótica terna, sentimental, moderna e vibrante), os personagens Cláudia da Silva (Malu Mader) e Sassá Mutema (Lima Duarte)  ainda são as melhores referências de camponeses das telenovelas brasileiras, quando o rural teve pleno reconhecimento de seu valor e importância no cenário sócio-econômico brasileiro. 


Cláudia da Silva (Malu Mader)

 

Sassá Mutema (Lima Duarte)

 

Em diversos outros casos de novelas contemporâneas das últimas décadas, ainda que justamente tão relevantes e impactantes quanto as do biênio 1988-1989, a mobilidade rural aparece mais em determinada perspectiva ou abordagem cênica de um retrato de isolamento, de imobilidade ou de conformismo social. Muitas vezes, tramas e conflitos entre personagens que divergem sobre questões relacionadas à mobilidade rural são equivocadamente associados a mobilizações corporativistas desagregadoras, rixas de família insolúveis ou disputas por terras improdutivas, ou ainda situações de agressão à natureza, motivo pelo qual talvez o cavalo (animal) ainda seja o meio de transporte preferencial de fazendeiros, agricultores e trabalhadores rurais, nestas produções de época ou contemporâneas.  Em Fera Radical e em O Salvador da Pátria, estas distorções comuns definitivamente não aconteceram. 

Entre os vários pontos em comum, entre as duas produções, pode-se ressaltar que ambas foram ambientadas em cidades interioranas fictícias, cujas atividades econômicas principais giravam em torno do setor primário, ou seja, da agricultura ou da agropecuária. Em Fera Radical (disponível na íntegra aos assinantes do Globoplay, desde agosto de 2020), a cidade fluminense de Rio Novo sediava pelo menos duas grandes fazendas de criação de gado bovino, além de um abatedouro e frigorífico de propriedade societária dos mesmos donos das principais terras e residências rurais do lugar. Existia ainda ali uma Faculdade de Agronomia comunitária, porém de renome nacional, e uma casa de pensão universitária e para viajantes e moradores temporários, esta última.de propriedade de uma família mais humilde. Cabe ressaltar que o fato que gerava todo o principal conflito da novela era um acontecimento  do passado, relacionado a um caso de grilagem de terras, justamente do sítio do pai da protagonista Cláudia, que fora assassinado em conseqüência de um acirramento de conflito de interesses. Diante da recusa do camponês Chico da Silva em vender suas terras, que incluíam uma fonte e açude de água que poderiam servir de suprimento ao gado das propriedades próximas, os fazendeiros vizinhos tentaram propor negócio de forma insistente, o que levou o pai de Cláudia a disparar com uma espingarda contra o fazendeiro Altino Flores (Paulo Goulart), deixando-o gravemente ferido e, posteriormente, paralítico. 


Chico da Silva (Júlio Braga)


 

Altino Flores (Paulo Goulart)


Já na novela O Salvador da Pátria (fortíssima candidata a suceder a reprise de “Sassaricando” no canal pago Viva, a partir de abril de 2021), a cidade fictícia, desta vez ambientada no interior paulista, chama-se Tangará (vizinha à também fictícia Ouro Verde) e a sua economia local orbita basicamente também em torno de uma atividade rural, no caso, o cultivo da laranja. Uma fábrica de suco concentrado é um dos cenários principais, além do que outra é construída ao longo da história, bem como é retratada a rotina e o dia-a-dia de trabalhadores rurais na lida do cultivo e da colheita da fruta. Embora os choques culturais, os envolvimentos afetivos e amorosos entre personagens que representam diferentes classes sociais e as tramas políticas e policiais (há a presença de uma organização criminosa de tráfico de drogas) predominem na novela, o pano de fundo é o universo rural, inserindo novamente os anseios da população camponesa [através de vários personagens como o trabalhador rural Sassá, e os fazendeiros Severo (Francisco Cuoco), Marina (Betty Faria) e Quinzote (Mário Lago)] por educação e cultura, convívio, inclusão e ascensão social, inserção econômica, representatividade política e mobilidade. 

A trama de O Salvador da Pátria constrói um retrato absolutamente realista, dinâmico e ativo da economia agrícola, no caso relacionada ao setor da fruticultura, ou mais especificamente a cultura da laranja ou citricultura. Os cenários principais localizavam-se na pacata cidade de Tangará, vizinha da próspera Ouro Verde, ambientadas no interior paulista. Neste caso, a concepção do enredo e da ambientação social no meio rural também foi ampla e abrangente. Havia na história três fazendas de cultivo de laranja, uma fábrica de sucos (concentrados ou in natura), além de uma fábrica em construção (que foi inaugurada nos capítulos finais da novela, mais precisamente no capítulo 185).   


Fábrica de suco de laranja

Sassá Mutema (Lima Duarte)
na plantação de laranja


O cotidiano diário de trabalhadores no cultivo e na colheita da laranja foi apresentado em cenas longas, detalhadas em diversos capítulos. Inclusive mostrando as condições de trabalho insalubres e perigosas dos trabalhadores que chegavam até as plantações e pomares de modo às vezes em condição irregular (o modo usual contraria o Código de Trânsito Brasileiro aprovado em 1998, que não permite o transporte improvisado de passageiros nas carrocerias de caminhões), mas usavam equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados no trabalho do campo, como luvas, chapéus e escadas. Da trama central fazia parte um grupo de trabalhadores rurais sazonais, chamado de bóias-frias, empregados nas fazendas como plantadores, cultivadores e colhedores de laranja. 


Boias-frias

Outros personagens de destaque eram também ligados ao meio rural, ainda que em sua maioria habitantes de área urbanas. Entre eles, faziam parte: sindicalistas que integravam um sindicato rural, camponeses, políticos (tanto de partidos de direita como de esquerda), uma empresa de rádio (a Rádio Clube Tangará), médico, advogados, engenheiros, padres, juiz, promotor, policial, administrador de clube social, estudantes universitários, empregados domésticos e outros personagens com ocupações típicas de cidade do interior. Não esquecendo os personagens urbanos importantes, havia a dona de casa Ângela (Lucinha Lins) e sua filha criança Regina (Natália Lage), esposa e filha do piloto de avião João Mattos (José Wilker) e a dedicada e sensível educadora Professora Clotilde (Maitê Proença), que iria revolucionar a educação na cidade, alfabetizando os trabalhadores rurais adultos, e também a vida e a compreensão do mundo do protagonista Sassá Mutema. 


Clotilde (Maitê Proença)

 

Havia também na novela a turma dos vilões envolvidos com duas quadrilhas de tráfico de cocaína, alguns deles os próprios radialistas comunicadores da Rádio Clube Tangará (e posteriormente operadores de rádio pirata), populares e prestigiados pela população local. As máfias de tráfico de drogas começavam uma disputa de poder nas cidades fictícias e, assim, movimentavam a maioria das tramas, tentando enredar e corromper vários personagens, entres eles o protagonista. O início dessa tentativa de manipulação e corrupção dava-se logo após a ocorrência dos assassinatos premeditados de dois personagens que orbitavam em torno dos protagonistas: Marlene (Tássia Camargo), a jovem amante do empresário e político Severo Toledo Blanco (Francisco Cuoco) e tornada "esposa de fachada" do camponês Sassá, e Juca Pirama (Luiz Gustavo), radialista sensacionalista e integrante de uma das quadrilhas de tráfico. 

O assassinato duplo ocorre nos capítulos iniciais, mais precisamente no capítulo 15, e a partir daí Sassá Mutema é injustamente acusado de assassino "em defesa da honra". Ao longo da história, Sassá conscientiza-se também de que foi vítima de difamação e de falsa acusação criminal e busca então provar sua inocência. 

As abordagens inéditas sobre mobilidade rural que marcaram estes dois folhetins eletrizantes profetizaram, de certa forma, a evolução gradativa da sociedade rural/urbana brasileira. Bem como, tocava-se de leve no tema do êxodo rural, da evasão "compulsória" e, muitas vezes, conflituosa dos habitantes do campo.  Caracterizava uma tendência tida como inevitável e desejada pela maioria, e uma conseqüência natural e harmoniosa por muitos “estudiosos” desenvolvimentistas, egressos em sua maioria de apoiadores do governo de regime militar (1964-1984). 

No entanto, na realidade muitas vezes este processo deu-se de forma forçada e pleno de sobressaltos e conflitos para os setores da agricultura e da pecuária brasileiras, tanto no âmbito da agricultura familiar como no chamado “agronegócio”. Embora, reconhecidamente, esta ala controversa da economia primária, ao longo de várias décadas, tenha dado respaldo e credibilidades para novas e avançadas leis de regulamentação do setor agropecuário que procuraram fortalecer alguns novos velhos conceitos na área, como a agricultura de precisão, a utilização de alta tecnologia voltada ao aprimoramento genético e o comércio de comodities agrícolas em mercados futuros. Menos, é claro, a defesa, a alternativa e a possibilidade de reforma agrária como política de desenvolvimento agropecuária. 

Até a década de 1980, menções e alusões à reforma agrária na teledramaturgia brasileira são absolutamente tímidas e subservientes, em decorrência da censura prévia institucionalizada, que vigorou até 1988, no setor de artes, espetáculos e diversões populares. De forma majoritária, as poucas tentativas de ampliar o debate sobre conceitos estruturais de legislações e mudanças no setor agropecuário brasileiro foram e continuaram sendo rapidamente encerrado ao esbarrarem na defesa constitucional do direito à propriedade privada. Problemas crônicos ou descompassos no setor agropecuário, conseqüências do sistema excludente adotado no país, de capitanias hereditárias, são vistos com grandes ressalvas e são transferidos seguidamente para a área de assistência social. Na teledramaturgia, não poderia ser diferente. 

Sob o prisma de outras temáticas importantes, como o debate público e a comunicação social democráticas, Fera Radical e O Salvador da Pátria são obras que explicitam narrativas bem construídas que propõem o enfrentamento civilizado dos sistemas de castas no meio rural. Dão credibilidade ao conceito de meritocracia e, ao mesmo tempo, criticam incisivamente o establishment, sem apelar para soluções cínicas e sensacionalistas. Ao final, e no desfecho das tramas, os protagonistas Cláudia e Sassá tornam-se pessoas felizes bem sucedidas em seus projetos profissionais e em suas vidas pessoais, e os vilões são castigados ou presos, conforme o desejo talvez majoritário do público telespectador. 

Não por acaso, as cenas finais de ambas as novelas são bem semelhantes. Em Fera Radical, grande parte do elenco participa da última cena, compondo a nova configuração da família Flores, juntos para tirar uma foto de família.

Todos posam sorridentes e alegres, e vários personagens segurando seus filhos crianças e bebês, juntamente com os protagonistas da história e velhos e novos casais que se formaram. O cenário é uma paisagem da fazenda principal da história, ao ar livre e num clima de união, justiça social e confraternização. 

 

Cena final de Fera Radical

 

Já no final de O Salvador da Pátria um grande grupo social formado pelos habitantes (figurantes) de Tangará, simbolicamente representando o povo que elegeu Sassá Mutema como prefeito, liderados por este e sua agora esposa Clotilde, formando o casal protagonista e seu filho bebê a frente dos demais, também caminha aproximando-se das câmeras e cantando todos juntos uma canção popular. 


 

Cena final de O Salvador da Pátria

 

Ambos os finais das duas novelas mostraram confraternizações que traduzem uma catarse coletiva dos telespectadores em relação ao sentimento de esperança elevado pelos desfechos das histórias. Ambos apresentaram em suas últimas sequências um clima solar, um cenário fértil rural e pacificado, e pleno de otimismo a partir do conceito muito bem compreendido pelos autores de mobilidade rural.

Comentários

  1. Sem sombra de dúvidas #FeraRadical é a melhor novela do mundo e Malu Mader mais linda do que nunca!

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    1. Renato, amigo e colega fã de novela, super obrigado por ter sido o primeiro leitor do blog a comentar. Toda opinão importa e é relevante pra mim, especialmente no início de um projeto pessoal. Às vezes, não tenho condições imediatas de responder aos comentários. Mas, quero poder conhecer a opinião do maior número possível de noveleiros, como você, q torcem pela teledramaturgia e pela elevação do nível da televisão brasileira... Se Fera Radical não é unanimidade como melhor novela do mundo, com certeza está lado a lado com outros mega sucessos da moderna teledramaturgia, como O Bem Amado, Escrava Isaura, Dancin' Days, Vale Tudo, Tieta, Pantanal, Éramos Seis e tantas outras. Quanto à lindeza de Malu Mader, como Cláudia da Silva, concordo mto com vc. Malu estava em um momento de "auge de beleza". Ela foi mto bem escalada e "talhada" p/ o papel (o que voltou a ocorrer em Top Model e Celebridade). De norte a sul e de leste a oeste, FERA foi e continua sendo um enorme sucesso. Um abração!

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