Curiosidades da novela O SALVADOR DA PÁTRIA (TV Globo, 1988)

De Lauro César Muniz, Colaboração: Alcides Nogueira;

Direção: Paulo Ubiratan, Gonzaga Blota, José Carlos Pieri e Denise Saraceni.


Pesquisamos e descobrimos:

 

- Teve como título provisório “Resgate” (Fonte: Revista Amiga). Presumimos através de nossa reflexão que este nome teria mais a ver com o perfil do personagem João Mattos (José Wilker), que afinal também era um dos mocinhos da história e passava toda novela tendo que se disfarçar como o radialista Miro Ferraz, substituto do irmão assassinado Juca Pirama (Luiz Gustavo) e buscando provar a sua inocência e resgatar a sua verdadeira identidade.

 (SPOILER: O disfarce do piloto havia sido forçado pela Máfia, e ele não podia denunciá-la, por estar sofrendo ameaças constantes. Nos capítulos finais da novela, também chegou-se ao ápice da história. Com a ex-mulher e a filha do piloto sequestradas pela máfia, o resgate de suas vidas seria a colaboração do personagem com a quadrilha, pilotando um boing carregado com toneladas de cocaína. Porém, o desenvolvimento e desfecho da história policial envolvendo o piloto João, que também havia sido usado como "laranja", tiveram mais a ver com o personagem Sassá, que afinal era o protagonista da história e teve suas ações decisivas para a vitória do bem no final da trama. Esta ideia já prevista pela sinopse inicial da novela certamente foi o que mais pesou na decisão de mudança e escolha do título "O Salvador da Pátria";

 - A opinião decisiva que mais contou para a produção de O SALVADOR DA PÁTRIA foi dada pelo diretor Boni, que sugeriu ao autor a ampliação do episódio do programa Caso Especial chamado “O Crime do Zé Bigorna” (Globo, 1977), escrito pelo mesmo autor e dirigido por Anselmo Duarte. O ator Lima Duarte interpretou o mesmo personagem correspondente ao do Sassá Mutema. (Fonte: wikipédia);;

 - O nome do personagem principal - "Sassá Mutema" é, na verdade, um apelido, pois o verdadeiro é Salvador da Silva, conforme ele se apresenta na sua primeira aula de alfabetização, no primeiro capítulo, que pode ser visto atualmente no YouTube. "Sassá" seria uma simplificação do nome Salvador, e "Mutema", uma corruptela de "muita teima", nome da fazenda de onde veio o camponês, segundo ele próprio explica: "lá o dono dizia que "para viver é preciso muita teima, muita teima". E como ele vivia repetindo isso aos amigos, foram apelidados tanto a fazenda quanto ele como "Mutema". Explicação muito simples, portanto, e também é citado no mesmo capítulo. Muito fácil de entender. O que não era tão comum naquela época (estamos falando de 1989) é a palavra ou expressão "resiliência", que significa quase a mesma coisa. E Sassá Mutema, além de ser talvez o personagem caboclo ou caipira mais autêntico da teledramaturgia brasileira, é também o primeiro que pode ser considerado um persistente e RESIILIENTE vitorioso, pois afinal deu exemplo na ficção: produziu alimentos, derrotou o analfabetismo, a ignorância, a politicagem e os interesses escusos da máfia das drogas.

 - No exterior, especificamente em Portugal, pela emissora RTP, a novela recebeu título diferente, no caso “Sassá Mutema”, justamente o nome do protagonista. (blog maite-proenca.blogspot.com);

 - O logotipo da novela criado pelo designer Hans Donner tem notada semelhança com o de “Livre Para Voar” (TV Globo, 1983, 18h), novela de Walther Negrão, fato que foi constado pelo jornalista M. Menezes (jornal O Fluminense, coluna Tele-Visão);

 - A novela teve grande número de cenas gravadas nas cidades paulistas de Campinas (aeroporto de Viracopos) e Ribeirão Preto (cenários das fazendas e plantações de laranjas), e também diversas na capital federal Brasília (no Congresso Nacional), onde a presença de artistas teria gerado tumultos e alterações na rotina de congressistas e servidores públicos (revistas Amiga, Contigo! e Veja – 1.3.1989). Nos capítulos finais da novela, Sassá Mutema elegeu- se senador da república;

 - No capítulo 162, os alunos adultos da escolinha de alfabetização da Fazenda Matão, instruídos pela Professora Clotilde (Maitê Proença) aprendem a cantar a canção francesa “A Marselhesa”, hino nacional da França, numa lembrança/homenagem ao bicentenário da Revolução Francesa, que mudou a configuração social e política daquele país. As cenas foram uma criação feliz do autor Lauro César Muniz e demonstrou com um mérito elogiado e reconhecido a criatividade e o senso de oportunidade de valorização da cultura universal. (Jornal O GLOBO, Revista da Tevê, Coluna A semana de 2.7.1989, página 6). No mesmo ano, quase simultaneamente, ou seja, na mesma “safra”, a TV Globo também produzia e apresentava às 19hs a telenovela “Que Rei Sou Eu”, de Cassiano Gabus Mendes, sendo este folhetim mais voltado à comédia e à fantasia irônica, irreverente e simbólica, inspirado nos filmes e romances de capa e espada, e também uma homenagem ainda mais explícita e uma reverência à Revolução Francesa, a inspiração política e ideológica e a democracia;

 - 1989 também é lembrado por ser um ano memorável para a teledramaturgia global, por trazer várias telenovelas que abordaram questões e temas políticos extremamente relevantes, intensos, corajosos após mais de duas décadas de censura estatal institucionalizada e atuais tanto para época como também são ainda hoje. Não por acaso, as tramas do horário nobre foram sucesso de público. Além de “O Salvador da Pátria” e “Que Rei Sou Eu?”, apresentadas pela Globo praticamente na mesma época, a televisão brasileira também exibiu no mesmo ano pelo menos outras duas novelas de ousados conteúdos políticos: “Tieta”, sucesso avassalador da Globo, escrita por Aguinaldo Silva, baseado na obra de Jorge Amado, que “sacudiu geral” o falso moralismo cultural, exibida na sequência; e “Kananga do Japão”, grande êxito da TV Manchete, que inovou ao abordar a repressão política na ditadura de Getúlio Vargas, na década de 30, misturando ficção e realidade como poucas vezes foi visto na teledramaturgia, escrita por Wilson Aguiar Filho, a partir de argumento de Adolpho Bloch;

 - Antes de Maitê Proença ter sido escalada para o papel da Professora Clotilde, o mesmo papel havia sido oferecido pela TV Globo para a atriz Vera Fisher, que, devido ao sucesso da telenovela “Mandala”, esperava tê-la em outra novela do horário nobre. Além da personagem principal feminina de “O Salvador da Pátria” foi lhe oferecido interpretar a protagonista Aline, de “Que Rei Sou Eu?”, vivida afinal por Giulia Gan, também foi rejeitado ou recusado pela atriz inicialmente cogitada para os papéis devido a questões de horários ou rotinas incompatíveis, uma vez que ela vinha se dedicando intensamente ao teatro. (Jornal do Brasil, Caderno B, de 05/11/1988, página )

 - A novela teve participação da dupla de cantores sertanejos Chitãozinho e Xororó, que apresentaram um show musical inserido na trama e dos atletas Hortência e Pelé, divulgando projetos esportivos reais de caráter e amplitude nacionais (O Globo, Segundo Caderno);

 - Além das questões políticas abordadas e da trama policial apresentada, alvos de debates, críticas e elogios diversos pela imprensa brasileira, a novela se sobressaiu imensamente por divulgar o otimismo no meio rural, através da cultura da laranja, ou também chamada de citrocultura, com o cultivo de frutas, a fabricação de sucos, através do trabalho intenso dos boias-frias, como os personagens Sassá Mutema (Lima Duarte) e Bodão (Lutero Luiz), e do empreendedorismo de empresário de processamento e industrialização de alimentos, como Severo Blanco (Francisco Cuoco) e Marina Sintra (Betty Faria). A cultura tornou-se ainda mais popular no Brasil nos anos seguintes e, em 1992, o veterano e prestigiado jornalista José Hamilton Ribeiro, da equipe de repórteres do programa Globo Rural, publicou o livro “Gota de Sol”, pela Editora Globo, no qual conta a história desta fruta e a sua importância no contexto da alimentação de origem orgânica. Leia abaixo trechos de matéria jornalística publicada pelo suplemento Feminino, jornal O Estado de São Paulo, de 30/07/1995, página F19:

“Gota de Sol” (a viagem da laranja, desde sua descoberta nos jardins da China aos navios sucoleiros de hoje), de José Hamilton Ribeiro e fotos de Amilton Vieira. Publicações Globo Rural. ...

Durante os 13 dias de viagem num navio carregado de suco de laranja, que saiu do porto de Santos até a Flórida, o jornalista começou a pensar sobre a rota da laranja e a escrever este livro. Além de ser a fruta mais produzida e mais desejada do mundo, a laranja é também um grande negócio: o setor movimenta algo em torno de um bilhão de dólares por mês (...)”

 - “O Salvador da Pátria” é, até hoje, a única telenovela brasileira a abordar com grande destaque a cultura da laranja no Brasil;

 - O tema da alfabetização, da escolarização e do letramento no meio rural foi abordado novamente em outras novelas globais que se seguiram, especialmente nas de autoria de Benedito Ruy Barbosa: Renascer (1993), Cabocla (2004; tendo sido também abordado na versão original de 1979), Meu Pedacinho de Chão (2014) e Velho Chico (2016);

 - Artistas integrantes do elenco e equipe de produção de O Salvador da Pátria falecidos:

José Wilker, Marcos Paulo, Cecil Thiré, Cláudio Cavalcanti, Luthero Luís, Mário Lago, Norma Geraldy, Flávio Migliaccio, Ivan Cândido, Thales Pan Chacon, Luiz Maçãs, George Otto, João Carlos Barroso, Ana Maria Nascimento e Silva, Eduardo Galvão, Paulo Ubiratan (diretor geral), Gonzaga Blota (diretor), Benjamin Cattan, Brandão Filho, Nelson Dantas, Thelma Reston e Paulo César Pereio.

 

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