MOBILIDADE, IRONIA E PROGRESSO SOCIAL

 

Fera Radical (TV Globo, 1988, 18hs) e O Salvador da Pátria (TV Globo, 1989, 20 hs). Duas telenovelas globais da década de 1980, ambientadas no interior agrícola fluminense e paulista, contraditoriamente, em dois dos estados mais urbanizados do Brasil, praticamente anteciparam o conceito “recente” de “agronegócio”, ao retratar com incrível e até então inédito realismo o universo rural.

 Apesar dos múltiplos dramas e situações retratados e das várias discussões e polêmicas levantados em questões que já naquela época esboçam a problemática ainda não conceituada até hoje e nem investigada ou estudada da “MOBILIDADE RURAL”, alguns “críticos” de televisão, míopes e desatentos, preferiram ignorar (ou no mínimo pouco comentar) na época o retrato fictício sensível e perspicaz da realidade de isolamento crônico, discriminação e desigualdade social estrutural, alta frequência de conflitos deflagrados e êxodo no universo rural.

 Cabe relembrar que entre estas duas produções revolucionárias da teledramaturgia, criadas com toques de maestria e brilhante inteligência por Walther Negrão e Lauro César Muniz, existem inúmeras semelhanças e coincidências de abordagem da temática rural. Mas, não somente sobre o tema, mas também sobre outros aspectos da “carpintaria” novelística: tramas, personagens, cenários, históricos e processos de produção, criações autorais e direções artísticas.

 Em Fera Radical, com uma história absolutamente linear e contemporânea (e O Salvador da Pátria, sabiamente, também incorporou está lógica, caracterização e cenografia), então pela primeira vez em praticamente quatro décadas de existência da telenovela brasileira, o meio rural surgia de forma minimamente realista, dinâmico e moderno. Independente do fato deste duo de folhetins terem sido considerados como “peças” de propaganda ou conscientização política por alguns críticos, tornou-se absolutamente concreta uma ambientação do universo rural absolutamente familiar, identificável com o contexto nacional da época e o com as peculiaridades do país.

 Além desta abordagem inédita em relação à mobilidade rural e das temáticas relacionadas ao campo agropecuário, Fera Radical e O Salvador da Pátria tiveram inúmeras semelhanças e coincidências felizes de produção. Ambas foram ambientadas em cidades fictícias (apresentadas como cenários predominantes). Na trama da primeira, o autor concebeu a moderna cidade de Rio Novo, ambientada no interior Fluminense, palco de fazendas de pastagens, uma empresa frigorífica sólida e robusta, além de uma universidade comunitária ativa e efervescente e de grupos sociais diversos e pró-ativos. Basta lembrar que a própria empresa agropecuária também comercializava e até exportava tecnologias de inseminação artificial e aprimoramento genético e era adepta da criação de gado no pasto (ou seja, não confinado; a história mostrava assim idéias e preocupações ecológicas sustentáveis), e realizava negócios tidos vultosos no país e no exterior, numa assimilação e reiteração sintonizada com conceitos de uma economia globalizada e desenvolvimentista.

 Todavia, o cenário rural era plenamente integrado com o urbano. Lá pela metade da trama, foi mostrado o empreendedorismo dos personagens jovens, dos universitários, que decidiram montar e abrir a Arquearia Sherwood, uma espécie de bar ou pub, também palco de shows de cantores e intérpretes musicais, o qual recebeu diversos artistas e celebridades brasileiras como Cazuza e Leila Pinheiro, interpretando eles próprios em apresentações memoráveis, que também agitavam a trama. Ainda a cidade fictícia da novela contava com um campo de aviação particular, exclusivo de aviões e aeronaves particulares (pelo que se pode deduzir que também havia proximidade ou contato com aeroclube ou escola de aviação), considerados verdadeiros luxos na maioria dos municípios interioranos brasileiros.

 A informática moderna, área de trabalho então em tímido início, introdução e implantação no Brasil, também foi um dos grandes destaques da novela. Mais do que todos os detalhes, o que talvez mais aproximava o meio rural do urbano nesta novela pioneira e revolucionária foi a inclusão (absolutamente feliz, pertinente e apropriada) da informática como atividade importantíssima, necessária e facilitadora para o setor econômico agropecuário. É correto afirmar ou reforçar a lembrança de que esta área de trabalho, ou seja, a computação, foi utilizada na história também e principalmente como um instrumento de espionagem para que a personagem Cláudia da Silva (Malu Mader, em interpretação magistral) pudesse descobrir e revelar os crimes e ilegalidades cometidas pelos(as) vilões(ãs) da novela. Artifícios da teledramaturgia clássicos, os famosos segredos de família, até então geralmente revelados através de cartas pessoais ou diários. Mas, enfim, falar sobre a “apresentação” feliz, bem-sucedida e salutar, e da inserção perfeita, dos conceitos de mobilidade rural e de informática em Fera Radical é “chover no molhado”. Todo o público brasileiro percebeu e atualmente reconhece. Uma pena que boa parte dos críticos não tenha reconhecido os méritos da produção na época e ainda continuam preferindo ignorar este avanço revolucionário que se deu na teledramaturgia.

 

Cláudia (Malu Mader): Analista de Sistemas

O mesmo ocorre na novela O Salvador da Pátria, em seu retrato absolutamente realista, pró-ativo e incentivador da economia agrícola, no caso a fruticultura, ou mais especificamente a cultura da laranja, ou da citricultura. Os cenários principais localizavam-se na fictícia cidade de Tangará, vizinha da também fictícia Ouro Verde, ambientadas no interior paulista. Neste caso, a concepção da trama e da ambientação social no meio rural também foi bastante ampla e abrangente. Havia na história três fazendas de cultivo de laranja, uma fábrica de sucos (concentrados ou in natura), além de uma fábrica em construção (que foi inaugurada nos momentos finais, na última semana dos 186 capítulos),

 Da trama central fazia parte um grupo de trabalhadores rurais (plantadores, cultivadores e colhedores de laranja), sendo quase todos boias-frias empregados nas fazendas, os sindicalistas que integravam um sindicato formado pelos camponeses, políticos interesseiros e honestos tanto de partidos de direita, como de esquerda, uma empresa de rádio (a Rádio Clube Tangará), cujos comunicadores tornaram-se imensamente populares e prestigiados pela população local; Tudo perfeitamente plausível e articulado num enredo eletrizante.

 Para o público telespectador da época também foi uma novela inovadora, já que consagrou definitivamente a expressão “laranja”, como uma espécie de pessoa solícita e prestativa que acaba se tornando um inocente-útil ao servir em geral involuntariamente a interesses corruptos, como “disfarce” ou “escudo” diante da fiscalização legal e do Poder Judiciário institucional. A novela deixou a mensagem artística clara e explícita de que o crime não compensa. Apresentou tramas eletrizantes que levantaram debates de questões éticas de grande importância: falou sobre relações afetivas ou amorosas de conveniência; exploração social; populismo, demagogia e corrupção política, ou politicagem em outras palavras; discriminação, desigualdade e exploração social; masculinidade tóxica, feminilidade tóxica, prostituição e aborto, entre outros temas de teor sexual; sensacionalismo, demagogia e corrupção nos meios de comunicação social; entre outros.

 Mais do que todos estes detalhes de O Salvador da Pátria, que denotam também uma incrível concepção e criatividade em relação ao que se pode definir como ações e incentivos artísticos “mobilidade rural”, talvez a principal contribuição social da novela, além do mero entretenimento, tenha sido a abordagem pioneira e foco importantíssimo em relação ao problema do analfabetismo e da ignorância política e cultura. Foi talvez a primeira produção da teledramaturgia brasileira do horário nobre (das 20h, na época ainda conhecida como “novela das oito”, e atualmente equivalente à clássica denominação, também já consagrada por sua audiência fiel como “novela das nove”, embora o início de sua exibição, desde a década de 1980, sempre tenha oscilado entre 20h30 e 21h30) a promover a defesa da alfabetização de adultos, do letramento e do acesso e do incentivo à formação cultural e artística da população mais carente, que esteve por longos períodos, excluída e evadida dos espaços públicos e privados e de outros meios (ou canais de acesso) de Educação e Cultura. Mais importante do que o tão famoso e aguardado “primeiro beijo” entre Sassa Mutema (Lima Duarte) e Clotilde (Maitê Proença), que significou uma virada na história e representou um dos picos de audiência da novela, foi o caráter social da mensagem de apoio e de valorização de temas relevantes para o meio rural, como mobilidade, alfabetização, letramento, cultura e desenvolvimento intelectual.

 Em O Salvador da Pátria a meritocracia (também no meio político) teve vez, talvez pela primeira vez na história da teledramaturgia brasileira (já que na super urbana e ultra realista Vale Tudo, novela anterior, de autoria de Gilberto Braga e co-autoria de Leonor Bassères e Aguinaldo Silva, os personagens honestos sofreram um bocado e nem todos eles tiveram o “final feliz” que o público torcia ou considerava como justo e merecido). Neste sentido, a novela de Muniz mostrou a prosperidade dos cidadãos honestos, mais do que a história anterior, pois os protagonistas não tinham tantos dramas de consciência ao tomar suas decisões. A novela deu esperança ao público (não por acaso é apontado por muitos estudiosos como a segunda maior audiência da década de 1980, no horário nobre, na média geral. A primeira teria sido justamente Vale Tudo). Mas, O Salvador da Pátria pode não ter sido tão reconhecida e duramente menosprezada por alguns críticos de jornais e revistas na medida em que sofreu uma “marcação cerrada” destes, pois de certa forma desvendava alguns dos chamados “crimes do colarinho branco”.

 Na verdade, o personagem Sassá Mutema se revelou um exemplo íntegro de líder político espontâneo (tudo que o establishment político e os sistemas de castas não querem, não desejam e não estimulam). Daí que se pode concluir que houve temores dos partidos de direita e de esquerda e que teria ganhado força uma certa “campanha orquestrada” ostensiva para solapar o prestígio desta novela, tanto na época original da exibição, quanto após até recentemente. Notas na imprensa de que os rumos da novela estariam desagradando a alta cúpula política em Brasília foram bastante numerosas. Tais notas geralmente mencionavam o fato de que parte política da novela seria um tanto “inconsistente”, enquanto que a parte policial seria um tanto “fantasiosa” e “acentuada”. Enfim, coisas de quem se propõe mais a causar ou aumentar polêmicas e, no final das contas, quer defender a postura das velhas expressões “cala a boca” e “quem é você?”

 Um detalhe incrivelmente relevante e ainda hoje inquietante ocorreu durante a produção de O Salvador da Pátria: pela sinopse inicial, o personagem Sassá Mutema, um camponês, analfabeto no começo, porém inteligente, sensível e imensamente humanista, seria, nos capítulos finais da novela, eleito presidente da república. Também o radialista corrupto Juca Pirama causou incômodo entre alguns jornalistas que se identificaram com o estilo agressivo de locução do personagem. Mas este era inteiramente uma criação artística. Inclusive, segundo descreve o site Memória Globo, o personagem se chamaria Juca Santana, porém o autor Muniz, aceitando a sagaz sugestão do ator Luiz Gustavo, que o interpretou, mudou o pseudônimo do personagem para Juca Pirama, em alusão e homenagem ao famoso poema “I-Juca-Pirama”, do poeta romântico Gonçalves Dias.

 Além disso, não havia também nenhum motivo para temer balbúrdia ou tumulto em eventuais gravações em Brasília, visto que o ator Lima Duarte, com o seu personagem Sassá Mutema, deveria receber gratidão e reconhecimento pela sua composição visceral de um personagem camponês íntegro e justo, que embora iletrado, manteve os seus princípios éticos e defendeu a Educação como poucos personagens o fizeram na ficção televisiva. Mais importante: Sassá foi visto pelo público em tão alta consideração pela população brasileira.

 Dada a relevância dos temas abordados pela telenovela, como a própria alfabetização e a atenção com a segurança pública, não haveria mal algum em encenar e criar/representar ficcionalmente uma eleição de Presidente da República. Ainda mais, por se tratar de um personagem honesto, com o dom do cultivo de alimentos e de flores, respeitoso à ecologia e ao meio ambiente, e ao mesmo tempo defensor do setor primário, do cultivo de alimentos, da Comunicação Social transparente e da escolarização e do incentivo à Cultura para pessoas de todas as idades.

 Atento à repercussão de sua obra, tida por muitos como “obra aberta” pelas peculiaridades singulares do gênero, o autor Muniz percebeu o “zum-zum” dos bastidores e resolveu salvar a sua novela da hostilidade da parcela de audiência incomodada e “encastelada”. Mudou parte da historia, transformou acontecimentos fictícios que seriam nacionais em fatos ou tramas locais e deu ênfase à história policial, contando para isso com a ajuda decisiva em momento de doença de seu colaborador Alcides Nogueira. Assim, Sassá Mutema continuou como prefeito de Tangará, como um líder honesto coerente e resiliente, com seu carisma e vocação para liderança, como um ser humano pleno e capaz, mas sem grandes pretensões e ambições “midiáticas”. E a novela, de fato, continuou contagiante com o seu otimismo essencial.

 

Prefeito Sassá Mutema (Lima Duarte)
ovacionado pelo povo

Com tudo isso, a história de O Salvador da Pátria não foi prejudicada como alguns insistem em afirmar, na tentativa vã de menosprezar o seu valor artístico. Tanto o autor como o público da novela (que lhe prestigiou como uma das maiores audiências registradas pelas novelas da Globo na década de 1990) de que não é preciso ser eleito Presidente da República e conduzido ao Palácio do Planalto para ser considerado um líder sensível, ético e honesto. ... A segunda novela que desmistificou o tema da mobilidade rural ainda é lembrada pela sua história fictícia que traz uma verdadeira parábola de liderança. Ainda que a parte policial tenha se destacado ao seu final, algo de mais importante se sobressai na resolução ou no desfecho das tramas que é a defesa da alfabetização, do letramento, da Educação e Cultura, da Comunicação Social transparente e da ascensão social pelo merecimento pessoal, pelo trabalho honesto, pelas ações políticas conciliadoras e pelo caráter de cada cidadão honesto, justo e realista.

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