MENINOS, EU OUVI ! As trilhas sonoras de O Salvador da Pátria

 O Salvador da Pátria – Nacional

Lançamento: Fevereiro de 1989

Formatos: LP e K7

Gravadora: Som Livre

Produção musical: Sérgio de Carvalho

Edição: Ieddo Gouveia

Capa: José Wilker

 



1.    "Amarra o Teu Arado a Uma Estrela" – Gilberto Gil: tema de abertura

2.    "Deus Te Proteja de Mim" – Wando: tema de Marlene e tema de Marina

3.    "O Tempo Não Pára" – Simone: tema de Severo

4.    "Direto no Olhar" – Rosana: tema de Camila

5.    "Além da Razão" – Beth Carvalho: tema de Lauro

6.    "Ciranda do Sassá" – Cláudio Nucci: tema de Sassá Mutema

7.    "Febre Tropical" – Lucinha Lins: tema de Ângela

8.    "Doce Prazer" – Walter Montezuma: tema de Paulo

9.    "Jade" – João Bosco: tema de Clotilde

10.  "Pra Dizer Adeus" – Wander Taffo: tema de Sérgio

11.  "Lua e Flor" – Oswaldo Montenegro: tema de Sassá Mutema e Clotilde

12.  "De Corpo Inteiro" – Jane Duboc: tema de Gilda

13.  "Horizontes" – A Cor do Som: tema de João

14.  "Delicious" – Yahoo: tema de Alice            

15.  "Bem que Se Quis" – Marisa Monte: tema de Bárbara   

16.  "Tá na Terra" – João Caetano: tema dos boias-frias

 

 

A trilha sonora nacional de O Salvador da Pátria teve como produto comercial um álbum eclético e sintonizado com trabalhos autorais de grandes intérpretes do pop nacional da década de 1980.

 

Gilberto Gil abre o LP com a faixa “Amarra O Teu Arado A Uma Estrela”, tema de abertura da novela. Suave, calma e harmoniosa, a canção transporta o espectador para diversos cenários rurais e urbanos, construindo um “clima” de otimismo e esperança. Tudo a ver com a trama que procura retratar o progresso e a prosperidade do meio rural e os personagens fictícios apresentados pela novela. Assim como em Fera Radical, houve um “casamento” muito feliz da música de abertura com o perfil do(a) protagonista ou com a ênfase dada à trama principal proposta pela novela. Ambas as músicas “resumiam” o perfil psicológico do seu / da sua protagonista. (As aberturas de Fera Radical e de O Salvador da Pátria, em vídeos alta definição, podem ser vistas no site You Tube).

 

Pelo menos três baladas românticas estouraram de imediato nas paradas musicais brasileiras. A primeira delas foi “Direto no Olhar”, da popularíssima cantora Rosana. Serviu como tema dos personagens Camila e Sérgio, vivendo um romance proibido, intenso, tumultuado e sem final feliz. A canção marcava o retorno de Rosana às trilhas de novela, depois do sucesso avassalador de “O Amor e O Poder” (‘Como Uma Deusa’), tema de Jocasta (Vera Fisher) de Mandala, um ano antes.

 

As outras duas músicas que estouraram nas paradas foram: “Lua e Flor”, de Osvaldo Montenegro, tema romântico (com letra plena de lirismo e metáforas) do casal protagonista Sassá e Clotilde; e “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte, que serviu de tema para a sedutora e sensual Bárbara Souza Telles, e que explodiu na novela e nas paradas musicais de todo o país. Impossível não associar a canção que é, na verdade, uma versão em português feita por Nelson Motta da italiana “E Po’ Che Fa’”, de Pino Daniele. Ocorreu com esta música um fato bastante curioso, além de ter sido descoberta e sugerida pela própria atriz Lúcia Veríssimo que viveu com muito talento e brilho a legítima “dona” deste tema musical.

 

O fato notável é o de que até praticamente o final da novela, os espectadores viam e conheciam a personagem Bárbara apenas de forma intrigante, como uma mulher lindíssima, jovem, sedutora, aventureira, descompromissada de padrões sociais, sempre sensual, inteligente e segura de si. No último capítulo, porém, houve a grande revelação da trama: Bárbara era ninguém mais, ninguém menos do que a chefe da máfia de tráfico de drogas, e também responsável pela maioria dos crimes ocorridos na novela, ou seja, a personagem era a grande vilã da história, superando até a ardilosa Gilda. A aura de sofisticação e glamour alcançada pela personagem na maioria dos capítulos, no entanto, permaneceu inabalada, graças em boa parte, à força da música tema.

 

A popularidade da canção se manteve intacta e transformou-se num exemplo clássico de gosto musical refinado. Com o final da novela, o tema de Bárbara tornou-se ainda mais popular e transformou-se numa espécie da canção cult das músicas de novela.

 

Para as cenas em que são mostradas situações que remetem à mobilidade rural, o tema musical mais utilizado foi “Tá na Terra”, de João Caetano, que cantava nos seus versos a rotina de agricultores. A versão mais conhecida desta canção fala em “arrozal” e “cachos”, mas a cultura agrícola retratada na novela não era o arroz, e sim a laranja.

 

Em algumas publicações impressas da época (revistas com letras de músicas temas), as compilações traziam outra versão para esta canção. Eram alterados versos como “O arrozal foi se espalhando”, “Pegando os cachos na mão” e “Cortando os pés rente ao chão” para outros como “O laranjal foi se espalhando”, “Pegando os calos na mão” e “Largando os Frutos no Chão”. (Revista Música Especial nº 09, Editora Imprima, 1989). (Confira a letra adaptada numa das próximas postagens da semana). Desconhece-se se houve ou não alteração na versão cantada e gravada para a trilha sonora oficial da novela.

 

Outras músicas de destaque do álbum nacional foram: “O Tempo Não Pára”, com composição de Cazuza e interpretada por Simone; “Deus Te Proteja de Mim”, de Wando; “Além da Razão”, de Beth Carvalho; “De Corpo Inteiro”, de Jane Duboc; entre outras.

 

 

O Salvador da Pátria - Internacional

Lançamento: Maio de 1989

Formatos: LP, CD e K7

Gravadora: Som Livre

Gerente de produto: Toninho Paladino

Seleção de repertório: Sérgio Motta

Edição: Ieddo Gouveia

Capa: Maitê Proença

 


 

1.    "Hold Me in Your Arms" – Rick Astley: tema de Severo e Bárbara

2.    "Two Hearts" – Phil Collins tema de locação: Tangará

3.    "One Moment in Time" – Whitney Houston: tema de Gilda       

4.    "I'll Be There for You" – Bon Jovi: tema de Ângela e também tema de Verônica

5.    "Girl, You Know It's True" – Milli Vanilli: tema de locação: São Paulo e rádio de João

6.    "Inside a Dream" – Jane Wiedlin     : tema de Alice

7.    "Closer Wish" – Sarah & Leon Bishop: tema de Ricardo e Clotilde

8.    "Domino Dancing" – Pet Shop Boys: tema geral

9.    "Baby I Love Your Way" – Will to Power: tema de Camila         

10.  "Lost in Your Eyes" – Debbie Gibson: tema de Marina e João

11.  "Dear God" – Midge Ure: tema de Marco Antônio e Zezé

12.  "Nice and Slow" – George McCrae: tema de Regina

13.  "Just Like the Phoenix" – Cathy Fischer: tema de Diná e Plínio

14.  "I Believe in You" – Stryper: tema de Sassá Mutema e Clotilde

 

 




Simplesmente o álbum de trilha de novela campeão de vendas até o final da década de1980, só superado pelo álbum O Rei do Gado – volume 1, lançado em 1996. Atualmente, ocupando a honrada posição de um segundo lugar, com o impressionante número de 1.463.543 discos vendidos (segundo o livro “Teletema”, de Guilherme Bryan e Vincent Villari. Das trilhas internacionais, no entanto, continua em primeiro lugar. E este quadro permanecerá no mesmo patamar, segundo vários analistas, já que o mercado fonográfico, desde o início do século atual, migrou quase que totalmente, das mídias físicas para os meios digitais.

 

Nada disso, porém, desmerece o êxito incontestável da trilha sonora internacional de O Salvador da Pátria, que além de ser a segunda no ranking das mais vendidas, também foi a primeira a ser oficialmente lançada em 3 formatos físicos: LP, K7 e CD, tido como uma mídia de áudio revolucionária para a época.

 

Uma mistura eclética de baladas românticas com faixas dançantes compõe o álbum internacional, numa seleção das mais variadas dos hits dominantes das paradas musicais e, sem esquecer, exclusivamente da música em língua inglesa. (Ao que parece, o inglês dominava a cena musical nos anos 1980, mais até do que hoje. E isso se refletia muito nas trilhas internacionais das novelas brasileiras ou nos seus LPs).

 

Entre as baladas do lado A, as mais tocadas na novela foram: “Hold Me in Your Arms”, do inglês Rick Astley, tema de Bárbara e seu envolvimento intenso com o deputado Severo Toledo Blanco; “One Moment in Time”, da americana Whitney Houston, tocado à exaustão como tema de Gilda; e “I’ll Be There for You”, da banda americana Bon Jovi. (Digo banda porque na época, o sobrenome Bon Jovi denominava a banda roqueira liderada justamente por Jon Bon Jovi. Posteriormente, o cantor conseguiu uso exclusivo de seu sobrenome no cenário artístico como seu unicamente. Passou a adotá-lo como nome artístico em seus trabalhos solos, dispensando a utilização do “Jon”. Parece um tanto confuso, mas foi esta mesmo a sequência de escolhas do cantor Bon Jovi).

 

A parte esta curiosidade, a canção “I’ll Be There for You” foi usada como tema de Ângela, segundo consta no livro “Teletema”, de Guilherme Bryan e Vincent Villari. O fato que suscitou críticas considerando a relação algo desconexa entre o que diz a letra da música e o perfil da personagem. No entanto, há também a nítida lembrança da canção ter sido tema de Verônica, a loira misteriosa, que entra numa crise ética e decide romper com a máfia das drogas da qual fazia parte. Este uso secundário pareceu ser bastante adequado, devido ao clima de filme noir, que marcou essa trama paralela.

 

Do lado B: “Baby I Love Your Way”, da banda Will To Power, que fez uma versão sintetizada e mais palatável para as novas gerações do reggae de Peter Frampton, mesclado com a música “Freebird”, de Lynyrd Skynyrd, ambos lançados em 1975. Este talvez seja um dos raros casos em que uma regravação supera o(s) registro(s) original(is) na conquista de fãs. Foi o tema escolhido para os personagens Camila e Sérgio, que acabaram rompendo definitivamente, e, com isso, o tema perdeu bastante espaço ao final da novela.

 

“Lost In You”, da cantora inglesa Debbie Gibson, uma balada melosa tocada ao piano, e cujo clipe também fez sucesso no Fantástico, deu um ar juvenil ao romance dos personagens Marina Sintra e João Mattos. Tornou-se uma das músicas mais tocadas, devido talvez à simpatia do à torcida do público pelo casal.

 

O mesmo pode-se dizer a respeito de “I Believe in You”, balada também roqueira da banda gospel norte-americana Stryper, tema de Sassá e Clotilde. Apesar de certo “descompasso” com o perfil do personagem Sassá do início, acabou se transformando numa escolha feliz como tema musical, pois transmitia um equilíbrio de emoções, aos poucos conquistado pelo protagonista.

 

Entre as faixas dançantes: o melhor da música pop da época, além de uma das “fraudes” mais famosas do meio musical internacional. Vários sucessos são incontestáveis. Entre eles estão os rocks que eram temais gerais da novela: “Domino Dancing”, da dupla inglesa Pet Shop Boys; “Two Hearts, do cantor inglês Phil Collins; e “Inside a Dream”, da americana Jane Wiedlin (egressa da banda de rock Go Go’s, formada exclusivamente por mulheres), tema também de Alice. (Meninos, eu vi!, como diria Juca Pirama: a atriz Suzy Rêgo, como Alice, desfilar a moda de Tangará e Ouro Verde, ao som de Jane Wiedlin).

 

Concluindo a análise do álbum, é interessante relembrar o sucesso de uma das primeiras duplas de cantores de hip-hop bem sucedidas comercialmente. Pela canção “Girl, You Know It’s True” (incluída na novela como tema geral), a dupla Milli Vanilli conquistou o prêmio Grammy de grupo revelação. Tempos depois, teve que devolver o troféu, visto que se descobriu que a dupla (formada por um americano e um alemão) tinha sido uma verdadeira armação, ou em outras palavras, uma fraude.

 

Seguinte: a dupla só se apresentava se pudesse cantar em playback, mas não eram eles que realmente cantavam. Por trás do pano, ou seja, nos estúdios de gravação eram usados “cantores-laranja” (bem ao estilo de alguns personagens da trama da novela brasileira da qual foi trilha), que emprestavam sua voz e interpretação e gravaram a canção no disco de estréia da dupla. “Um dia, provavelmente, o som do playback deve ter falhado e então se descobriu que a dupla Milli Vanilli oficial era, na verdade, uma dupla de ‘mímicos’ ou ‘dubladores’ que embarcou na farsa armada por um empresário”. Bom, esta foi uma das versões que circulou na mídia. Mas, na verdade, a farsa veio a tona quando a dupla de imitadores resolveu que queria cantar de verdade e pediu para assumir os vocais, dessagrando em cheio o “empresário” da dupla, foi quando este cheio das boas intenções denunciou a farsa, na qual ele próprio havia sido o mentor, ou no mínimo, um cúmplice conivente. O escândalo aconteceu durante logo após a premiação do Grammy de 1990, portanto a novela O Salvador da Pátria já havia terminado e o sucesso da trilha sonora praticamente já estava consolidado.

 

Resultado do qui-pro-có estrangeiro: a dupla foi execrada por parte da mídia mundial e teve que devolver o prêmio Grammy, sete dias depois de recebê-lo. A dupla famosa voltou ao ostracismo e agente acabou por lançar um novo grupo musical, mais numeroso, com vários cantores e uma cantora, rebatizado de The Real Milli Vanilla.  (Os “verdadeiros” Milli Vanilli não fizeram o mesmo sucesso, pois o público parece ter gostado mais dos farsantes). Historinha mais do que folhetinesca, maior babado!). O desmonte da farsa não impediu o sucesso mundial da canção – que tinha seus méritos – e foi uma das músicas mais usadas no segmento “Cenas do Próximo Capítulo” da novela global. Além disso, um dos músicos da dupla inspirou até o ator Paulette com o seu personagem Milha do humorístico Escolinha do Professor Raimundo, que satirizou os artistas gringos espertalhões.

 

Em resumo, a trilha internacional de O Salvador da Pátria agradou “gregos e troianos”, e foi mais do que bem sucedida, está e segue sendo uma das mais curtidas e vendidas da história da teledramaturgia.

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