O tema mobilidade rural foi
abordado com segurança e ganharia enorme destaque em ambas as novelas. Em Fera Radical, a relevância ocorre desde
as imagens de abertura, onde a protagonista Cláudia da Silva (Malu Mader)
recorda cenas do incêndio criminoso que vitimou sua família, sendo que esta
imagem marcante da história funde-se com o seu trabalho de digitação e
informática em um computador tido como tecnologia de ponta, mostrado e
reverenciado através de imagens sucessivas como uma verdadeira modernidade
especialmente para o que hoje se imagina como o Brasil rural da época. Após
decifrar dados importantes (confidenciais talvez), a personagem vestia um
figurino característico: jaqueta de couro preta, luvas e capacete,
especialmente para pilotar uma motocicleta, o veículo mais utilizado por ela no
decorrer da novela. Cabe ressaltar que a moto em questão tinha a marca de sua
fábrica em destaque, no caso, a Agrale. Ou seja, de cara já apresentava um
trabalho completamente ajustado e pertinente de merchandising, recurso há tempo
utilizado pela teledramaturgia, mas que até aquele momento era mais comum em
telenovelas urbanas.
Já em O Salvador da Pátria, a abertura apresentada seguiu a mesma linha
de concepção: resumiu ou recriou a trajetória do seu protagonista, no caso, o
personagem Sassá Mutema (Lima Duarte), e também inseriu o recurso do
merchandising, no caso, a imagem de um trator (também em atividade ou
funcionamento conduzido por agricultor ou lavrador, preparando a terra para uma
plantação) da marca Massey Fergusson.
Cabe ressaltar uma
perceptível semelhança entre estas duas telenovelas tidas como rurais e uma
notável diferença em relação ao grande número de telenovelas tidas clássicas e
paradigmáticas do universo rural, todas estas de autoria de Benedito Ruy
Barbosa, considerado pela maioria dos críticos como um precursor, sábio
conhecedor dos temas rurais e entusiasta deste gênero de telenovela. Para isso,
basta focar especialmente em Fera Radical.
Aqui, a diferença é gritante. Uma das atividades laborais predominantes
praticadas na novela é a agropecuária, da mesma forma que nas duas versões de Paraíso (1982 e 2010), em Pantanal (Manchete, 1990) e em O Rei do Gado (Globo, 1996/1997), mas o
cavalo não é o meio de locomoção principal ou preferido da maioria dos
personagens masculinos (tanto dos trabalhadores rurais como urbanos). O
personagem Fernando (José Mayer) o utiliza em algumas atividades específicas
como o pastoreio do gado bovino ou nas práticas esportivas em rodeios, mas
utiliza o animal como seu “veículo” de locomoção no seu dia-a-dia. Em cena, a
substituição do trabalho animal, mais especificamente do cavalo, pelo
automóvel, ocorre com um veículo apropriado de um modelo rústico especialmente
voltado ao meio rural (o que era um dos mais populares dessa linha de
fabricação na época).
Em Fera Radical e em O Salvador
da Pátria, as protagonistas femininas (Cláudia e Clotilde) não são nada
conformistas, nada conservadoras, e são até mesmo “atrevidas” como Cláudia é
também definida pela vilã e algoz de sua família Joana Flores (Yara Amaral). Os
protagonistas Fernando Flores e Sassá Mutema não fazem conchavos interesseiros
e nem cedem facilmente a chantagens materiais e emocionais. No final de novela,
Sassá ouve a pergunta da chefona da máfia "por que “você não fecha com a
gente?” e fica absolutamente claro que ele repudia a corrupção e a
desonestidade, para surpresa da vilã mafiosa Bárbara (Lúcia Veríssimo).
A jovem agricultora Cláudia
da Silva de Fera Radical vê o mundo
rural como um cenário familiar, honesto e pleno de possibilidades de
desenvolvimento auto-sustentável. Apesar de sua caracterização e de sua criação
(em parte) urbanas, ela não tinha aversão pelo universo rural, ao contrário da
personagem Marília (Carla Camurati), arquiteta desinteressada um pouco do setor
agropecuário, bem nascida e bem criada numa fazenda próspera, educada em boas
escolas e universidades, porém insegura e desencontrada de sua vocação e de seu
lugar no mundo, por se sentir deslocada e por sabotar a vocação rural de seus
parceiros afetivos. Marília esconde seus sentimentos e afetos por motivos
diferentes da protagonista Cláudia. Enquanto busca seduzir seus afetos e teme a
rivalidade feminina como um obstáculo para a felicidade, Cláudia esforça-se de
modo persistente no trabalho intelectual e braçal, tanto no universo urbano
como no meio rural. Como o personagem Sassá Mutema faria cotidianamente na
história da outra novela comentada, Cláudia não teme o desafio de lidar com
trabalhos e atividades agrícolas tidas como masculinas, ou pesadas, como
manipular um arado mecânico de tração animal. E ainda, no meio rural, promove a
informatização e (assunto mais do que oportuno.por se tratar do tema mensal da
teledramaturgia comparado por nosso blog) a mobilidade rural.
Outro tema levantado com
muita inteligência pela novela de Walther Negrão foi a questão da habitação,
por estar também relacionada com o eixo central da trama principal. Não por
acaso, o autor criou na novela uma pensão, que servia de moradia provisória aos
estudantes universitários vindos de outros lugares, como o descolado, humilde,
porém bom de papo (e de planos) e "eternamente jovem" Paxá (Tato
Gabus Mendes), o esportista Marcelo (Raul Gazolla) e o tímido Dudu (Luís
Maçãs), todos com planos de se estabelecer na cidade e iniciar um empreendimento
seguro ou de iniciar uma trajetória profissional na área na qual estudavam.
Além disso, a pensão também acolheu a jovem Cláudia, que se hospedou nela, a
fim de trabalhar na fazenda e no frigorífico da família Flores, com o intuito
de descobrir os detalhes fatídicos do massacre de sua família no passado, da
grilagem de suas terras e do roubo de sua propriedade.
Na época em que a novela
foi exibida originalmente, ano de 1988, não existia uma política de habitação
de governo voltada ao meio rural, como o programa de “Minha Casa Minha Vida
Rural” criado na década de 2010, nem havia um debate salutar ou estimulado
sobre reforma agrária e sobre desenvolvimento e políticas agropecuários, que
ficaram bastante restritos na história. O documentário audiovisual "Cabra
Marcado Para Morrer", iniciado em 1964, do cineasta Eduardo Coutinho, que
reportou e tratava de um gravíssimo assassinato que permaneceu impune e que
revelava toda a violência e a corrupção de conflitos agrários no interior do
nordeste brasileiro, por exemplo, foi proibido pelo regime militar e teve que
esperar 20 anos para ser finalmente concluído e estrear nos cinemas.
As cenas antológicas da
reforma e reconstrução da casa do sítio de antiga propriedade de Chico da
Silva, pelos sócios Cláudia e Fernando, deu-se no capítulo 50, a partir
totalmente do apoio da iniciativa privada, que contou com uma benfeitora, uma
investidora (no caso, se fosse uma obra ou um produção artística, poderia ser
chamada de mecenas, no caso a mãe de criação de Cláudia, a Dona Marta (Laura
Cardoso), personagem inspirado pelo romance “A Visita da Velha Senhora”, do
suíço Friedrich Dürrenmatt, publicado em 1956.
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Cláudia (Malu Mader) e Fernando (José Mayer) Reformam o sítio juntos |
Contudo, o tema mobilidade
rural foi sempre e crescentemente presente na telenovela. A ponto de que no
capítulo 78, a benfeitora Marta presenteia a sua filha de coração Cláudia e o
amigo Fernando Flores, (filho de seu grande amor no passado) com um veículo
novo, no caso uma caminhonete Pampa (merchandising da marca automobilística
Ford), na época com grande aceitação no mercado de automóveis, dentro de uma
linha de veículos rústicos da referida fábrica, direcionada ao trânsito de mais
difícil trafegabilidade e à rotina de transporte cotidiana no meio rural.
A mobilidade rural existiu
e foi continuamente abordada em Fera
Radical, através das histórias de personagens ativos, pró-ativos e também
resistentes e resilientes, Deu-se também através do dinamismo e da modernidade
inserida pelo autor, tudo de forma plausível e coerente: atividade agropecuária
intensiva (com toda a logística implantada e em funcionamento, além de
perspectivas de mercado, pesquisa científica de criação e aprimoramento
genético), tecnologia de informação, informática avançada, aviação particular,
políticas e estruturas públicas de saúde em funcionamento (ainda que na época
fossem bastante insuficientes, precárias, pífias e incipientes) - os protagonistas, por exemplo, foram
baleados na história e socorridos e tratados em hospitais públicos. Já o
personagem Altino (Paulo Goulart), paralítico após ser atingido por tiro na
coluna vertebral, procura e encontra tratamento em clínica particular; Dessa
forma, o cenário rural retratado, e especificamente de um setor agropecuário
foi imensamente fiel e realista ao contexto de mobilidade ou imobilidade
(isolamento) no meio rural.
A personagem Cláudia encara
o desafio de trabalhar no serviço árduo do meio rural ao manipular um arado de
tração animal, embora se machuque gravemente um de seus pés logo nesta primeira
tentativa de recomeço. O acidente
acontece no capítulo 53. Contudo, a partir de várias situações, Cláudia
demonstra ter uma personalidade ou postura ousada, moderna e bastante integrada
dos “mundos” rural e urbano. Ela surge ou se apresenta para quase todos os
personagens como uma profissional de informática, habilitada e competente, e
logo após se revela e se torna uma mulher de negócios, ambiciosa, segura,
investidora e economista. A personagem enfim, trouxe às mocinhas e heroínas das
telenovelas uma energia masculina inédita. Criada a partir de uma situação de
orfandade e educada com carinho e afeto pela senhora Marta, sua dedicada
protetora e benfeitora que também lhe fornece o empréstimo necessário para o
pagamento da reaquisição do sítio e depois reconhece plenamente apoiando-a em
seu projeto de manter e prosperar a atividade agropecuária que aprendeu de seus
pais.
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