“De
onde viemos?” e “Para onde vamos?”. Esses questionamentos milenares e
ancestrais que fazem parte, em geral, das inquietudes de todo o ser humano
estiveram presentes já em mais de uma dezena de telenovelas brasileiras. Bem
como a existência do plano espiritual, constatação esta respaldada cientificamente,
em certa medida, e mais amplamente considerada pela religiosidade popular. Idem
em séries estrangeiras. Não raras vezes, as chamadas novelas espíritas
resultaram em altos índices de audiência, repercussão altamente positiva e
grande reincidência de reprises e remakes. Entre os exemplos notáveis desse
estilo de teledramaturgia estão as hiper bem sucedidas Sétimo Sentido (TV Globo, 1982) e A Viagem (Globo, 1994).
SÉTIMO
SENTIDO: A SENSIBILIDADE E A
PARANORMALIDADE À FLOR DA PELE
Sétimo Sentido, criada pela grande
dama da teledramaturgia, tida como “a maga das oito”, Janete Clair (1925-1983)
é um caso raro de novela com viés espírita que conquistou tanto religiosos
fervorosos e devotos (espíritas kardecistas, umbandistas, católicos,
evangélicos, budistas, hinduístas e adeptos das mais diversas religiões e
doutrinas filosóficas), como também agnósticos e céticos, que certamente
ficaram fascinados pela história de suspense, de luta por justiça e de resgate
ou reparação de direitos. Janete soube tecer com maestria a trajetória da
marroquina (mas filha de brasileiros) Luana Camará (Regina Duarte), que vinha
do Marrocos para o Brasil para recuperar seus bens familiares que lhe haviam sido negados.
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Priscila Capricce
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| Luana Camará |
Por uma
série de contingências do destino (frutos da imaginação fértil da autora),
Luana foi morar no apartamento de uma atriz italiana, exuberante e
extrovertida, Priscila Capricce (também interpretada no primeiro capítulo como uma
pessoa viva pela mesma Regina Duarte). Embora tenha sido assassinada no
primeiro capítulo, a personagem dona do apê adquirido pela marroquina, mas
fluente em português como uma brasileira nata, acaba retornando em espírito e
incorpora justamente em Luana.
Luana,
de personalidade introvertida, e de temperamento contido e ponderado, foi
vivida com brilhantismo por Regina Duarte. Da mesma forma esplêndida que a
esfuziante, hedonista e passional Priscila, que quando injustiçada ou
contrariada era chegada num “escândalo básico”. Com os vários “barracos”
armados por Priscila (em vida e após a morte), pode-se afirmar que a
personalidade de Priscila foi uma espécie de precursora da alma radiante da
Viúva Porcina, interpretada também por Regina em Roque Santeiro, em 1985. A atriz mesma afirmou isso no livro “Nossa
Senhora das Oito”, de Mauro Ferreira e Cleodon Coelho (Editora Mauad, 2003).
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Porcina
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Casamento cigano de Tião e Priscila |
A
principal diferença era talvez o fato de que o visual de Priscila era, segundo
muitos, “alguns graus” menos cafona ou brega do que o de Porcina. Contudo, há
quem discorde. Porém, isso não importa muito e não desfaz em nada o brilho de Sétimo Sentido ou de Roque Santeiro. Apenas houve naturais
diferenças de concepção no figurino de uma personagem e da outra. O que se
sobressaiu em Sétimo Sentido foi,
especificamente, o espiritualismo, e não o materialismo (embora ambos estiveram
igualmente muito presentes e interligados na concepções dramatúrgicas dos
cenários e figurinos).
Os
temas sobrenaturais ou paranormais abordados na novela repercutiram na imprensa
brasileira e causaram controvérsias. Diante das polêmicas sobre a clarividência
de Luana ou a incorporação de um espírito de uma pessoa falecida por uma mulher
sensitiva, médium, clarividente ou dada a visões premonitórias de
acontecimentos futuros que diziam respeito a sua vida pessoal, as de seus entes
queridos e também as dos entes queridos de uma falecida com quem tinha esse
grande laço espiritual originário, em teoria, de uma vida passada, várias publicações
jornalísticas reportaram e analisaram o caso de Luana e Priscila. Desde sua
construção fictícia até as possibilidades ou semelhanças com casos reais de
manifestações espirituais, relatos de pessoas que haviam passado por situações
semelhantes de mediunidade, clarividência, sonhos e visões em experiências de
quase morte.e assuntos relacionados. Entre elas, o periódico carioca Jornal do
Brasil, que publicou em 27/06/1982, em seu suplemento de TV, a reportagem “Tente
entender Priscila Capricce”. Neste artigo, vários especialistas, entre eles a
própria equipe principal deste núcleo da novela (a autora Janete Clair e as
atrizes Regina Duarte e Jacqueline Lawrence), líderes religiosos, pesquisadores
e psicanalistas deram suas versões, explicações e opiniões sobre o assunto.
Seja
como for, a autora Janete Clair, que havia estudado o assunto por vários anos,
contemporizou as várias opiniões e afirmou o seguinte: “Se o caso não é
provável, contudo é possível”, por isso Janete Clair, embora auto-declarada
católica apostólica romana, afirmava não duvidar das influências espirituais na
realidade terrena, segundo várias religiões e doutrinas espíritas, como a
kardecista e umbandista.
De
acordo com a autora, os acontecimentos ou fenômenos tidos como paranormais
mereciam a ampla discussão e consideração propiciada pela telenovela. Tais
fatos e sensações também deveriam ser estudados a luz da fé e da ciência. Por
isso, incluiu na história a personagem parapsicóloga Célia (Jacqueline
Lawrence), que ajudou Luana a entender o que havia se passado ou estava se
passando no plano espiritual e que afetava diretamente a vida dela, através das
suas frequentes visões enigmáticas (porém cansativas e angustiantes), nas quais
antevia o seu futuro, relembrava flashes de acontecimentos e vidas passadas, e de
seus sonhos premonitórios.
Volta
e meia, Luana entrava em transe e, após esses momentos, recuperava sua
consciência, mas com lapsos de memória, justamente daquilo que havia ocorrido
nos instantes anteriores. Pode-se dizer que, nesses momentos, Luana não
dominava sua consciência e nem mesmo suas ações físicas. Momento estes que
podiam perdurar por dias ou semanas. Após o espírito de Priscila deixar o corpo
de Luana, esta recuperava sua consciência e o domínio de seu corpo físico.
Porém, além dos lapsos de memória, se sentia frágil, fragilizada e amedrontada.
Ansiava por entender o que o espírito de Luana queria comunicar e o porquê de
ter sido escolhida para esta incumbência ou por ter sido escolhida para receber
este pedido de ajuda. Foi quando a parapsicóloga, indicada pelo advogado
procurador dos bens e velho amigo de Priscila, conduziu uma terapia de
regressão, na qual foi desvendado parte do mistério. Descobriu-se que Luana e
Priscila haviam sido irmãs em uma vida passada, e a “Luana” da outra encarnação
havida morrido precoce e abruptamente, deixando uma dívida de gratidão para com
a sua irmã. Esse entrecho da regressão deu a devida “coerência” para a trama.
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| Priscila Caprice |
Tendo
sido uma forma ou de outra, (como uma história fictícia provável e realista, ou
fantasiosa e inverossímil), o fato é que a novela Sétimo Sentido pegou e empolgou o público. Ainda que tenha sido aos
poucos. Na segunda fase da novela, atingiu altos índices de audiência e acabou
por se tornar uma das obras-primas da teledramaturgia brasileira, dentre as
mais citadas e lembradas de Janete Clair.
Antes
de esmiuçar o resumo e alguns dos vários lances e reviravoltas folhetinescas da
trama, cabe lembrar que as freqüentes incorporações do espírito de Priscila
Capricce estavam ligadas à “posse” ou a “energia” emanada de um objeto de
decoração da casa de Luana, no caso um cristal, herdado da esfuziante atriz que
havia morrido assassinada no litoral brasileiro, no estado da Bahia. Ao morrer
deixou a filha Cila (Isabela Bicalho), criança, órfã e desamparada, que foi
parar num orfanato. Até que os telespectadores e a própria Luana entendessem o
vínculo existente entre o objeto e o espírito da falecida, o público assistia
as vibrações (tremulações e mudanças de cor e luminosidade) do cristal e logo
percebia que um fenômeno paranormal estava por acontecer.
Um
breve resumo da trama é o seguinte: No final da década de 1950, os pais de
Luana Camará tiveram que deixar o Brasil e emigraram para o Marrocos. Eles
foram perseguidos políticos e obrigados pelo governo do presidente Getúlio
Vargas, quinze anos antes, a deixar o país juntamente com todas as suas economias
ou a fortuna deles.
Os
pais de Luana também eram donos de um grupo empresarial formado por várias
indústrias do ramo de alimentação, no interior (na cidade fictícia de Pedra
Linda) e capital do Rio de Janeiro, deixando-o com o sócio e administrador Antônio
Rivoredo, que prometeu um dia devolver a parte dos fundadores que ficaria sob a
sua responsabilidade. Em ato contínuo, o futuro patriarca dos Rivoredo surrupia
todos os bens do Camará, tomando para si e seu grupo familiar as empresas
Catarina, fábricas de produtos alimentícios, embalados e enlatados.
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| Indústrias Catarina |
Nos
anos 1980, após a morte dos pais de Luana e de Antônio Rivoredo, as indústrias
Catarina estão nas mãos dos filhos e herdeiros legítimos da família Rivoredo.
São administrados, no entanto, por Tião Bento (Francisco Cuoco), protegido do
patriarca que acaba de morrer e da matriarca Santinha Bergamann Rivoredo (Eva
Todor), e em parceria (mas numa constante disputa de poder) com Sandra (Natália
do Valle), a filha mais velha nascida do casal Rivoredo.
O
que os telespectadores ainda não sabiam (mas os mais noveleiros já intuíam), e
que foi revelado nos capítulos finais, era que Tião era também filho de
Santinha e, portanto, meio-irmão de Sandra e dos outros dois irmãos Rivoredo:
Rudi (Carlos Alberto Riccelli) e Tony (Paulo Guarnieri), ambos bastante alheios
e desinteressados dos negócios da família.
Um
detalhe bem curioso da trama, que os fãs que tiveram o prazer de acompanhar a
exibição única da telenovela, no ano de 1982, não esquecem e isso permanece na
memória de muitos, foi o artifício utilizado por Luana e sua amiga e terapeuta
espiritual parapsicóloga Célia (Jaqueline Lawrence) para conter ou evitar as
constantes incorporações do espírito de Priscila Capricce. Elas descobriram que o espírito de Luana ficava aprisionado justamente no objeto de decoração
ligado à falecida: o cristal. Também sabendo disso, Priscila trancara o objeto num armário de vidro
transparente, que era visualizado em diversos momentos chaves da trama.
Depois
de um longo período, “aprisionado” no cristal e “trancafiado” no armário, o
espírito de Luana quer se expressar, ocupar o seu verdadeiro corpo físico e resolver as situações e conflitos que Priscila havia complicado, quando estava “dominando” mental e fisicamente Luana. No penúltimo capítulo da novela, o espírito de Priscila insiste novamente numa “última chance” para incorporar e
poder desfazer a confusão que havia provocado, numa cena parecida com uma das
cenas clássicas do filme Ghost (EUA,
1990), quando o espírito do personagem interpretado por Patrick Swayze incorpora
na médium vivida por Whoopi Goldberg. A diferença é que enquanto no filme
tratava-se da chance de um ser humano ter um “momento de ternura ou despedida”,
na novela era a oportunidade para um “acerto de contas” da personagem-espírito
num tribunal de julgamento.
Cabe
ressaltar que muitos críticos céticos e líderes religiosos da época refutaram em
grande parte a concepção da incorporação espiritual defendida pela trama da
novela. Disseram especialmente que aquele tipo de possessão espiritual fictícia
era fruto da imaginação criativa da autora e não tinha ligação com o mundo
espiritual real, dado que, segundo eles, “o tipo de possessão total como o
retratado na novela não existe”, de modo que a ocorrência possível de
incorporação conhecida seria apenas as que acontecem de forma parcial e momentâneo
e ainda não alterariam a personalidade do médium. Realmente, a transformação de
Luana em Priscila se dava em cenas de grande e crescente suspense, em situações
tensas “preparatórias” a la Mulher Maravilha ou a la Incrível Hulk. Para os
telespectadores da época, acostumados e fãs também das séries americanas de
super heróis, não importou muito se a trama central de Sétimo Sentido era puramente ficção ou tinha explicações científicas
lógicas ou verossímeis, ou mesmo uma base consistente em fatos reais. Tanto
que, após os capítulos em que a mudança de personalidade de Luana para Priscila
se tornou duradoura, a audiência da novela simplesmente decolou.
A EXPLOSÃO DO CRISTAL
Uma
das cenas mais empolgantes da história, em minha opinião, não foi exatamente a
cena clássica no penúltimo capítulo da incorporação final do espírito de
Priscila em Luana no tribunal (embora esta também é imperdível e fundamental de
assistir para se compreender a novela o mínimo que seja). Mas, sim, vários
capítulos antes, quando o objeto cristal vibra numa “pegada” tão forte que
simplesmente explode os vidros do armário e estilhaça-se em “mil pedaços”. Foi
o momento em que muitos telespectadores simplesmente “piraram” ou “foram ao
êxtase” com aquela emoção. Resultado da ousadia: altos picos de audiência em
todo o país e o público imaginando logo, sem ter dúvida, que “agora sim a
espírito de Priscila vai voltar a ‘encarnar’ no corpo de Luana pra valer e agir
como uma super heroína”. Um clima de história em quadrinho total.
Naquela
“altura do campeonato”, Luana aparentemente havia se libertado daquele tipo de
obsessão ou solicitação espiritual, pois havia finalmente reencontrado num
orfanato a filha órfã da atriz falecida e estava encaminhando um pedido formal
de adoção. No entanto, o espírito de Priscila ainda não estava tranqüilo e em
paz com o mundo físico e assim ocorreu antológica “explosão do cristal”. Esta
cena passou na Rede Globo de Televisão, que através da inteligência luminosa,
lúcida e de total vanguarda, desafiava abertamente o cinismo da censura federal
do regime militar. Considerando que, quase na mesma época, mais precisamente
alguns meses antes, outra explosão, sendo esta real, concreta e de altíssimo
impacto, causou enorme comoção nacional.
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Priscila junto do cristal
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Enquanto
isso, ou mais precisamente anteriormente na vida real, outra situação trepidante
comoveu todo o país. Mais ou menos um ano antes da estreia de Sétimo Sentido, outro acontecimento antecedente
(fonte de inspiração talvez) e digno da maior atenção (e de investigação policial
e ampla cobertura jornalística noticiosa) chocou, comoveu e explodiu em
variadas versões em todo o Brasil, ocasionando as mais esdrúxulas explicações
oficiais, quando indivíduos inescrupulosos detonaram uma verdadeira bomba
explosiva real, durante episódio histórico que ficou conhecido como bomba do
Riocentro, ocorrido em 30 de abril de 1981. Esse acontecimento, no entanto, foi
notoriamente censurado nos telejornais de todas as televisões brasileiras,
inclusive nos da própria TV Globo. Mas, o caso foi muito bem explicado em
livros didáticos, publicados ainda na década de 1980, como História do Brasil,
de Nelson Piletti, (Editora Ática, 1988) que traz, em seu capítulo Marchas e
contramarchas da abertura (1974-...), página 185, o seguinte texto:
“...
– em 30 de abril de 1981, milhares de pessoas estavam reunidas no Riocentro
(Rio de Janeiro) para comemorar o Dia do Trabalho. De repente, no
estacionamento, uma explosão. Uma bomba explodira no colo do sargento Guilherme
Pereira Rosário, provocando sua morte e ferimentos no capitão Wilson Luís
Chaves Machado, que estava ao seu lado. Ambos eram do serviço secreto do I
Exército. Tudo levava a crer que os dois estavam lá para praticar um atentado.
Um acidente teria provocado a explosão da bomba antes da hora. Restava saber se
os serviços de segurança e o governo iriam admitir esse fato.
Foram
muitas as promessas de que o episódio do Riocentro seria esclarecido
rapidamente. Entretanto, o primeiro presidente do Inquérito Policial Militar
(IPM), o coronel Luís Antônio de Prado Ribeiro, foi afastado porque tinha o
firme propósito de chegar à verdade. Seu substituto, o coronel Job Sant’Ana,
chegou à fantástica conclusão de que os militares é que foram vítimas: alguém
teria jogado a bomba no colo do sargento. A conclusão do inquérito, segundo
alguns observadores, levou o próprio articulador político do governo federal,
general Golbery do Couto e Silva, a afasta-se do cargo de ministro do Gabinete
Civil."
A
explicação subjetiva de Sétimo Sentido
para a explosão do cristal foi muita lógica: uma questão de pressão, detonação
e descompressão. Apenas, a diferença é que se deu na novela foi que a encenação
de uma explosão ocorreu num cenário físico-espiritual e, na vida real, a
explosão da bomba do Rio Centro deu-se num local físico e concreto. No caso no
colo de um general com o seu carro estacionado próximo a uma multidão do povo
que fazia uma manifestação comemorativa do Dia Mundial do Trabalhador. E apesar
das intensas investigações e dezenas de explicações “coerentes” dadas pelas
autoridades oficiais da época, não se chegou a uma explicação conclusiva, visto
que até hoje o público telespectador brasileiro ficou sem saber o que aquele general estava fazendo ou tinha agendado para fazer precisamente naquela
hora e naquele local, e nem qual a identidade da pessoa (“alguém dentre os
manifestantes”, segundo o último investigador designado) que ‘plantou’ a bomba
do Rio Centro ou se foi também um fenômeno a la Poltergeist, semelhante ao que
foi ocorrer na ficção mais ou menos depois na novela criada por Janete Clair, e
com um breve auxílio emergencial de Sílvio de Abreu (pouco antes dos capítulos
finais, Janete Clair adoeceu de câncer, doença que a mataria em 1983 e
necessitou da ajuda para a elaboração de vários capítulos de seu amigo Sílvio
de Abreu, o que este escritor fez com
plena gratidão e sem pensar em crédito pessoal, muito mais por amizade e porque
curtia demais a novela) sempre sob a
direção de Roberto Talma, Jorge Fernando e Guel Arraes.
Detalhe
importante: protagonizada pela talentosíssima e “namoradinha do Brasil” Regina
Duarte na sua fase super ativa Priscila Capricce (pós Malu Mulher e
pré-Porcina, pré-Raquel Accioli), e pelo galã “gigante” Francisco Cuoco na sua
fase Carlão-chofer de táxi-Tião Bento-de office boy a executivo. Daí já se
percebe a grande inteligência, sensibilidade e intuição poderosa da autora
Janete Clair, visto que suas telenovelas globais dialogavam com o passado da teledramaturgia
e com a realidade contemporânea e, assim, construíam um sentido para situações aparentemente
irracionais e incompreensíveis da vida real.
Certamente,
não foi à toa que Manoel Carlos, autor já consagrado na época, e que um ano antes havia escrito de forma bem sucedida, a prestigiada Baila Comigo
(Globo, 1981), disse ser um grande fã de Sétimo Sentido, em declaração da época, publicada pelo Jornal do
Brasil. No entanto, Janete Clair teve que percorrer o que se costuma chamar de
“caminho das pedras”.
No
caso de Sétimo Sentido, segundo
diversas reportagens e livros temáticos sobre a teledramaturgia brasileira,
várias cenas, entrechos e assuntos cogitados pela autora e equipe de criadores
e diretores de novelas foram censurados sumariamente e tiveram que ser
descartados para exibição. Cenas como as de uma greve de operários numa das
fábricas das empresas Catarina, que segundo a censura seria uma criação
sensacionalista e estimuladora de conflitos, pois estaria ‘pegando carona” na
greves massivas de metalúrgicos ocorridas no período recente da época.
Também
foram proibidas e/ou mutiladas cenas de beijos românticos entre os personagens
de Luana e Rudi. A censura impôs que as cenas fossem excluídas e deu como
explicação o fato de que, segundo a interpretação dos censores, seria um
estímulo ao adultério e ao divórcio de casais, já que o personagem Rudi era
legalmente casado. Embora estivesse vivendo uma crise no casamento e
intencionasse a separação, os beijos eram com outra mulher pela qual ele estava
apaixonado. Toda a sinopse e cada um dos scripts ou roteiros de cada capítulo
tiveram que passar pelo crivo dos censores de Brasília.
Para
o telespectador menos informado, a compreensão linear da história deve ter sido
em certa medida prejudicada. No entanto, apesar da censura e dos cortes
impostos, a novela em termos gerais alcançou um amplo sucesso popular. Tanto
que até tornou-se objeto de paródia pelo programa humorístico Os Trapalhões, da forma semelhante ao
que ocorreu com outras novelas do horário nobre satirizadas pelos programas TV Pirata e Casseta & Planeta, no final dos anos 1980 e nas décadas de
1990, 2000 e 2010.
O sucesso avassalador de Sétimo Sentido antecipou em cerca de 17 anos o mega sucesso hollywoodiano O Sexto Sentido (The Sixth Sense, EUA, 1999), estrelado por Bruce Wills e Hailey Joel Osment. E também em 33 anos o êxito arrebatador da série internacional Sense 8, produzida e distribuída pela Netflix, originalmente no período de 2015 a 2018, que talvez tenha sido bem menos crível e muito mais ficção científica (pelo que se pode perceber através dos trailers) do que a novela da TV Globo, mas mesmo assim arregimentou milhares de fãs no Brasil e no exterior.
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Série Sense 8
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| Filme O Sexto Sentido |
Muito
além de todas estas curiosidades antológicas e deliciosas para todos os
noveleiros e/ou fãs da teledramaturgia brasileira, Sétimo Sentido teve muitos outros momentos folhetinescos memoráveis
e igualmente deliciosos: as barreiras constantes dos apaixonados Sandra
(Natália do Valle) e Danilo (Cláudio Cavalcanti), que tiveram que enfrentar imensos
obstáculos impostos por ambos os lados de suas famílias. Entre os antagonistas do casal estavam a inconformada Rita
(Tereza Sodré) ex-companheira de Danilo, e o vilão Jorge,
ex-namorado de Sandra, que forçava uma reaproximação movido apenas pelo
interesse em dar um golpe do baú. Natália e Cláudio repetiram com grande êxito
o par romântico de Água Viva. Também
memorável foi o encontro feliz e o início de namoro entre a secretária deficiente
física (Lisa Vieira) e o cego (Edwin Luisi), ambientado em muitas cenas em
jardins floridos, tranqüilos e solares; a fase inicial do mulherengo (antes
dele se apaixonar por Luana/Priscila) Tião Bento, quando ele colecionava
encontros amorosos com mulheres com as quais paquerava e passava uma noite
romântica, e de quem invariavelmente roubava um de seus sapatos para guardar
como recordação. Um fetiche sexual simplesmente hilário, e que configurava uma
situação praticamente inédita na teledramaturgia.
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Santinha (Eva Todor)
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Danilo (Claudio Cavalcanti) e Sandra (Natália do Vale)
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Destaque
ainda para a avoada Santinha (Eva Todor), viúva e matriarca dos Rivoredo que
não tinha muita afinidade com os negócios e nem com a solidão. Logo, ainda no
primeiro capítulo se casa com o ator frustrado pelo ostracismo Valério, Vavá
(Armando Bógus), artista excêntrico que via na sua esposa apaixonada mais uma
mecenas para as suas realizações artísticas do que uma companheira. Vavá passou
praticamente toda a novela em conflito com o enteado Tony Rivoredo (Paulo
Guarnieri), jovem mimado e ciumento, que simplesmente não suportava o padrasto
e dificultava a vida conjugal do segundo marido de sua mãe o máximo possível.
Houve
ainda cenas brilhantes com a despachada e alto astral Gisa (Tamara Taxman), motorista
de caminhão, que ao final da novela viveu o drama de ser acusada injustamente
pelo assassinato de seu namorado Renard (Adriano Reis), morto a queima roupa
pela ex-esposa Mappy (Myriam Pérsia), mulher obsessiva e passional que não
aceitou a separação e buscou vingança de fato. Mappy acabou num hospício,
devido a sua loucura progressiva. A personagem foi em certa medida, uma reedição
da esquizofrênica Walkíria (Rosamaria Murtinho), de Pai Herói (Globo, 1979), escrita pela mesma autora Janete Clair. Já
a caminhoneira conquista a liberdade e encontra ao final um novo companheiro,
ao menos para uma primeira viagem de caminhão, o solitário e excêntrico Vavá.
Teve
também cenas belíssimas envolvendo os três principais protagonistas: Luana, Tião
Bento e Rudi. Sozinhos, em dupla ou mesmo os três artistas em cena, ou ainda
com outros atores.
Impossível
esquecer a cena do acidente subaquático sofrido por Rudi, que estava
mergulhando no mar profundo, na costa litorânea brasileira, em busca de
vestígios de um navio submerso. Luana estava no Marrocos, visto que havia sido
extraditada do Brasil por ser estrangeira e estar residindo no Brasil com
documentos vencidos (e ter sido denunciada pela secretária de Tião Bento, na
ocasião seu inimigo instável, e como bom sedutor e galanteador, sempre repleto
de bajuladores, entre puxa-sacos e dedo-duros), e de lá, a milhares de
quilômetros de distância, tem uma visão meio premonitória meio telepática com
imagens super definidas do acidente de Rudi, bem no momento em que estava
prestes a acontecer. Ela viu exatamente no fundo do Oceano Atlântico, o
“despencamento” de um ferro enorme (se não me falha a memória era tipo um
cofre) que caía nas costas dele e o deixava muito ferido. Clarividente poderosa
ela, não? ... Só que não conseguiu evitar o pior, mas intuiu verdadeiramente ou
percebeu a dor física sentido pelo seu amado. A partir daí, decidiu dar um
jeito de retornar imediatamente para o Brasil. E quando voltou, voltou mais
Priscila Capricce do que nunca.
UM CLICHÊ DRAMÁTICO
NOVELÍSTICO JANETIANO DELICIOSO
Já
o pobre gato mergulhador do Rudi teve
que amargar um período na cadeira de rodas. Após o momento do acidente, a
história seguiu com o resgate e o salvamento do personagem, porém os médicos socorristas
não deram certeza se ele iria conseguir andar normalmente outra vez (“talvez
com muita fisioterapia”, prognosticaram alguns). Janete Clair escrevia sobre
acontecimentos acidentais de forma bem realista, material e fisicamente, mas
abordava também, com muita sabedoria e compreensão da vida, a força psicológica
dos seus personagens e sentimentos e insights metafísicos por assim dizer, já
que retratava muito bem estados mentais diversos como a melancolia e a euforia.
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Helenice (Beth Goulart)
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| Rudi (Carlos Alberto Ricelli) |
Capítulos
mais adiante, quando Rudi ainda estava sofrendo com seqüelas físicas do
acidente, numa determinada cena, surgiu uma cobra jibóia enorme ameaçando o seu
filhinho Rudinho (filho dele com a esposa de comportamento reservado, pacata,
bonita e bem “amélia” Helenice, interpretada por Beth Goulart). A cena
ameaçadora não foi antevista pela clarividente Luana, mas foi percebida no momento
crítico pelo pai do menino. Também na mesma cena, pode-se dizer que Rudi, pela
primeira vez, “se descobriu” como pai. Optou por estar presente e pensar como
um pai atento e heróico.
A
cena transmitia a grande aflição de uma pessoa que se via momentaneamente
paralítica e impotente, mas que busca se esforçar e vencer suas limitações.
Lembro bem desta sequência, gancho do capítulo de sábado (cap. 71 - 19/06/82), com o bebê
estando na mira da cobra e o pai atônito sem que ninguém mais pudesse proteger
a criança. Foi o gancho de suspense para as cenas do próximo capítulo e eu, e
todos os telespectadores da época, só pudemos conferir o desfecho da situação dramática
na segunda-feira, quando o bravo Rudi fez um esforço colossal, recuperou a
movimentação das pernas e da coluna, e num misto de pavor, aceleração cardíaca
e instinto de paternidade e sobrevivência a flor da pele, salvou o seu filho. O
desfecho da situação continuou impactante e foi o seguinte: Rudi conseguiu
pegar a serpente com as mãos e jogá-la longe. Em seguida, pegou o filho no
colo, permaneceu de pé e voltou a andar. Levou o filho para dentro de casa e
nunca mais usou a indesejada cadeira. Janete Clair era mestre total nestas
cenas de clima dramático.
Tão
interessante quanto essa profusão e conclusão eletrizante de ápices dramáticos
(que se fosse hoje numa série de TV, diriam que seria nada mais nada menos que o
“fecho” de um arco da história) era a ideia recorrente de Janete Clair de
utilizar este recurso “simbólico-mitológico” da serpente venenosa. Essa
situação dramatúrgica voltou a ocorrer na teledramaturgia brasileira ainda na
década de 1980, justamente na novela Direito
de Amar, de Walther Negrão, que adaptou para a TV uma antiga radionovela de
Janete, intitulada originalmente como “A Noiva das Trevas”. Nesta trama, num
passeio a cavalo no campo, uma serpente venenosa surge inesperadamente e ataca
com uma picada fortíssima o cavalo ordeiro, montado pela
mocinha Rosália (Glória Pires). Obviamente, o cavalo sofre o golpe, agita-se
com a dor terrível, tem uma síncope e acaba derrubando a personagem que também
se machuca gravemente com contusões. Felizmente, a cobra foge e não volta a
atacar.
Como
simples telespectador, na época não tinha conhecimento algum de como foi
conseguida/dirigida esta reação de autodefesa do cavalo. Pensando atualmente
sobre esta cena, consigo afirmar com convicção de que deve ter sido bastante
trabalhosa e muito bem ensaiada, assim como a outra cena mais simples (mais
igualmente impactante) de Sétimo Sentido.
Pode-se perceber que Janete Clair tinha certa “obsessão” com animais venenosos,
de forma semelhante como eu, e muitos outros telespectadores, pudemos perceber
outra idiossincrasia do também mestre da teledramaturgia Gilberto Braga. Esta
é, talvez, um pouco mais peculiar. Ocorre que, volta e meia nas clássicas
novelas do Gilberto, aparece um recurso dramático que eu considero um “clichê
de autor”, que é o seguinte: algum personagem sofre (ou menciona-se que já
tenha sofrido) acidente grave ou mortal em um poço de elevador, sendo este equipamento
velho, negligenciado pela manutenção ou sabotado pelos vilões. Vide Louco Amor, Corpo a Corpo e Paraíso
Tropical, três telenovelas globais de horário nobre – novela das oito ou
das nove – cujas criações foram concebidas pelo autor mencionado.
Confesso
que até hoje tenho um pouco de medo, ou penso muito sobre isso, ao precisar
andar de elevador em prédios antigos. Graças ao Gilberto Braga, tenho a salutar
noção de que todos os meios de transporte (até os mais mecânicos, elétricos ou
casuais) necessitam de constante supervisão e/ou manutenção. Como se vê
telenovela é cultura, e é também serviço de utilidade pública.
OUTRAS CURIOSIDADES E
DESTAQUES DE SÉTIMO SENTIDO:
Voltando
a falar sobre Sétimo Sentido, uma das
curiosidades do valor cultural da novela, e também ainda parcialmente
desconhecida pelo grande público, refere-se às interferências abusivas,
repressoras, inconcebíveis e A-BI-SUR-DAS,
como diria Priscila Capricce, da divisão de censura da ditadura militar. No
livro “Beijo Amordaçado: A Censura às Telenovelas Durante a Ditadura Militar”,
de Cláudio Ferreira, (Ler Editora, 2016), na página 147, cita-se que além da
paranormalidade, a censura enxergou na novela Sétimo Sentido muitos outros pontos que supostamente mereciam atenção
especial. “... O censor Elisio M. Finato chegou a sugerir, em um parecer, que
Janete estaria apelando para o oportunismo ‘para assegurar ibope’, investindo
no que ele chamou de ‘assuntos do momento’: esportes no mar, ‘ensaio de greve
(ineficaz e dispensado)’, desemprego em massa, exilados políticos, lei dos
estrangeiros, homossexualismo. Outra censora, Jeanete Maria de Oliveira Farias,
examinou os dez primeiros capítulos, e detectou vários assuntos proibidos,
capitaneados por – mais uma vez – adultério e amor livre. Mais duas censoras
analisaram os dez primeiros capítulos, fizeram suas restrições e a novela
estreou.”, explica o pesquisador.
Interessante
ressaltar que este livro de pesquisa abrangente e criterioso deste jornalista e
funcionário da Secretaria de Comunicação Social da Câmara dos Deputados
Federais em 2016 contemplou uma leitura, análise e relato de conteúdos de
correspondência extremamente detalhada entre artistas contratados pelas
emissoras de TV (como autores, diretores e compositores musicais) e censores
que em sua maioria tinha uma formação cultural nula e estavam lotados nessa
repartição pública com o único objetivo de reprimir as “imoralidades” e os
“maus” costumes da classe artística (e óbvio, boicotar suas criações, seu livre
pensamento e a liberdade de expressão). Outro objetivo dessa divisão pública
era o de calar as opiniões dissidentes e/ou críticas da sociedade brasileira
e/ou estrangeira. Vozes estas que haviam conseguido minimamente driblar a
censura e se expressar na sociedade ou na mídia, ou que pelo menos haviam
tentado um diálogo nos meios de comunicação sobre temas e assuntos considerados
incômodos pelo regime de governo ditatorial civil-militar imposto ao custo de
repressão.
Como
se sabe, a censura não proibiu a exibição de Sétimo Sentido, porém certamente
aumentou em muito o trabalho da autora, de atores, das equipes de produção e da
emissora de televisão. Com as imposições de diversos cortes de cenas e
proibições a assuntos como tabus ou impróprios ao público da telenovela, várias
modificações tiveram que ser feitas em diálogos, cenários e representações
diversas. Mas, para alegria dos telespectadores, a explosão do cristal parece
ter sido a solução mágica encontrada pela autora para dar vazão às suas idéias
de reparação de justiça e de direitos humanos e Priscila Capricce pôde “assombrar”
pra valer a inércia de muitos censores arbitrários, a preguiça mental dos que
desejavam na ficção desfechos medíocres e patifes para os vários conflitos
existentes, a astúcia dos acusadores fictícios e a desatenção dos jurados
fictícios. E assim o espírito da atriz esfuziante e espevitada conseguiu
quebrar as resistências de muitos telespectadores que ainda estavam incrédulos
na possibilidade de mais um (“fantástico”) final feliz.
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| Luana, Tião e Cila (Isabela Bicalho) |
O
público brasileiro de telenovela de 1982, ávido pelas emoções criadas pela
mente fértil da “maga das oito” Janete Clair teve ainda muitos outros momentos
marcantes de Sétimo Sentido, como o
casamento cigano (num ritual cigano, a noite e a beira da praia) entre Luana
(que estava “incorporada” pelo espírito de Priscila) e Tião Bento. Como Tião
estava totalmente envolvido e apaixonado pela figura exuberante de Priscila, e
Luana, completamente inebriada pela sua situação de transe espiritual, houve
uma nova cerimônia de casamento civil no último capítulo, em que o noivo e a
noiva, confirmaram o “sim”, casaram-se finalmente conscientes e apaixonados. Na
cena final, o casal já tinha um filho biológico, além da filha adotiva Cila.
Luana Camará havia recuperado seus direitos, conseguindo que a justiça se
pronunciasse, conseguiu provar aos amigos que não havia se transformado em
nenhuma “bruxa” malvada e tampouco sofria de esquizofrenia. Acabou conquistando
também a felicidade nos negócios e no amor. E assim terminou a história de
Priscila, Luana e Tião Bento, num cenário romântico com o casal Luana e Tião e
com narração da bela mensagem da autora Janete Clair:
"Eu
gostaria que o ser humano acreditasse que existe uma força capaz de mudar a sua
vida. É bom confiar em si mesmo e esperar um novo amanhecer".
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