 |
| Imagem da abertura da novela A Viagem |
 |
Diná (Christiane Torloni) e Otávio (Antônio Fagundes) |
A “vida” após a morte ou a jornada espiritual na vida terrena e no além,
segundo o que a filosofia espírita kardecista acredita ser real, compõe o
centro da trama principal de A Viagem
(Globo, 1994; remake de uma produção original da extinta Tupi). A novela concebida
e reescrita por Ivani Ribeiro, em colaboração com Solange Castro Neves, atualmente
em exibição pelo canal Viva, trouxe aos noveleiros um das mais belas e
elogiadas visões e/ou interpretações do tema espiritualismo. Por motivos como
este, é uma das campeãs de reprises no Brasil e no exterior, e considerada também
uma das mais nostálgicas e inesquecíveis pelo público da teledramaturgia
brasileira.
Diferentemente de Sétimo Sentido,
em A Viagem o plano espiritual
habitado pelos espíritos dos falecidos ou desencarnados era plenamente caracterizado
visualmente. E o processo de digamos assim “aquisição de casa própria” ou
“busca por um lugar no mundo”, segundo a filosofia espírita kardecista, foi
muito bem encenado e explicado dentro do universo tipificado, complexo, porém
altamente compreensível e prestigiado da teledramaturgia. Um dos grandes
méritos da história de Ivani Ribeiro, segundo os seus numerosos fãs-clubes e
admiradores, seria a de apresentar sua história de um modo terapêutico, de modo
a relativizar, compreender e suavizar traumas decorrentes de mortes abruptas,
inesperadas e violentas.
Alexandre (Guilherme Fontes), Otávio (Antônio Fagundes) e Diná
(Christiane Torloni), os personagens protagonistas da trama, após morrerem
fisicamente, passaram a habitar cenários de um “plano astral” caracterizado por
paisagens que compõem, de certa forma, o inconsciente coletivo popular do
“além”. Tanto do inferno/purgatório (ou na linguagem espírita kardecista, um
local denominado umbral ou vale dos suicidas), com todo o seu aspecto
carregado, pesado e tenebroso, e do céu ou paraíso, com todo o seu aspecto
aprazível, reconfortante e luminoso.
Em 1975/76, a paulista Ivani escreveu a telenovela A Viagem para a TV Tupi, assessorada por Herculano Pires, então
presidente da Federação Espírita Paulista. A trama atingiu índices notáveis de
audiência (o capítulo do reencontro de Diná, vivida por Eva Wilma, e César,
vivido por Altair Lima, teve picos de 90% de sintonia na capital paulista,
segundo a revista Contigo!). A produção consolidou um filão reconhecido pelos
noveleiros: o de tramas que abordam o espiritualismo, a concepção filosófica e
ideológica voltada para além do materialismo físico-biológico. Além da novela
clássica que deu origem à versão global, a autora escreveu vários outros
folhetins também especialmente dedicados a este tema, como O Terceiro Pecado (Excelsior, 1968), e o seu remake adaptado O Sexo dos Anjos (Globo, 1989-90), e O Profeta (Tupi, 1977/78). Em relação a
esta última, cabe lembrar que na mesma época, sua colega de profissão Janete
Clair abordava o mesmo tema, mas com um diferente viés, em O Astro (Globo, 1977/78).


A “TRINCA DE OURO” DAS TELENOVELAS GLOBAIS DE IVANI RIBEIRO
O fato é que as tramas espiritualistas de Ivani Ribeiro tornaram-se
algumas das mais importantes referências desse e para esse tipo de novela.
Tanto que ao final de 1993, após uma súbita perda de audiência no horário da 7,
com o mediano desempenho de Olho no Olho,
de autoria de Antônio Calmon, a TV Globo rapidamente decidiu por “revirar o
baú” de Ivani Ribeiro, tentando de certa forma salvar ou dar nova visibilidade
a um tema de grande apelo e interesse popular. O providencial remake de A Viagem foi a solução encontrada para a
emissora tratar de recuperar a sua larga e tradicional liderança no ibope.
A princípio, o diretor substituto Wolf Maia, encarregado do horário,
pretendia produzir uma novela totalmente inédita, fruto da mente criativa,
inventiva e sintonizada com o público jovem e adulto da autora paulista.
Contribuía para esta idéia, o notável prestígio alcançado por Ivani Ribeiro com
diversos folhetins reescritos e novamente bem sucedidos, que já haviam ganhado
ótimas atualizações pela TV Globo, como Amor
Com Amor Se Paga (1984), A Gata Comeu
(1985), Hipertensão (1986/87) e Mulheres de Areia (1993). Principalmente,
com o sucesso avassalador deste último, cerca de um ano antes. E também o fato
de Ivani ainda estar no comando das respostas e decisões sobre projetos de
textos originais ou adaptados de suas idéias fervilhantes.
Logo no início de 1994, a audiência de Olho no Olho, veiculada no horário das sete, passou a oscilar
negativamente. E pouco adiantou, na época, a emissora ter investindo
pesadamente (junto com o fato de estar apresentando bons resultados) em
sofisticados efeitos especiais. Uma das críticas mais contundentes à novela de
Calmon era o clima de violência pesada constante e excessivamente mórbido dos
personagens vilões da trama. Estes expeliam (ou em linguagem politicamente
correta exibiam) raios lasers vermelhos de seus olhos, com efeitos
hipnotizadores e não raro letais. Os mocinhos, por sua vez, “expeliam” raios
azuis para contra-atacar e neutralizar os combatentes do mal. Nada que o
escritor já não tivesse escrito, mas com muito mais humor e originalidade, em Vamp (1991/92), sua trama anterior que
realmente empolgou o público e também significou um pico estável de audiência.
As oscilações de audiência das tramas lúdicas sobrenaturais acabaram
revelando as opiniões e preferências do público das novelas globais. Os
telespectadores da época talvez pudessem ter cansado dos excessos do gênero
ficção científica nas telenovelas, mas o grande público continuava curtindo com
muito interesse o tema do espiritualismo. Dado o tempo exíguo para planejar e
pré-produzir com a qualidade global uma novela “100% inédita” a partir de uma
história original, o diretor Wolf Maia “bateu o martelo” e optou por refazer
uma trama enxuta, de rápida e fácil produção, e ainda já “testada e facilmente
identificável para o público das sete”. Em 1975/76, no entanto, a versão da
Tupi havia sido exibida no horário das oito. Portanto, o diretor arriscou-se,
de certa forma, porém a elevada audiência e o prestígio do público
mantiveram-se constantes ao longo de toda a exibição. Cabe dizer ainda que os
telespectadores da mesma época puderam acompanhar também e prestigiaram, em
horário próximo ou alternativo, a inédita Tropicaliente,
às seis, e um dos remakes de Éramos Seis,
produto do SBT, exibido às sete e meia e às nove, tendo ambas telenovelas alcançado
elevada qualidade.
Feita toda esta explanação, não é incorreto afirmar que a telenovela
destaque da TV Globo de 1994 foi uma aposta alta e vitoriosa da emissora e uma
conquista de público imensa para a teledramaturgia brasileira. E mais: ao lado
de outros dois remakes globais, A Gata
Comeu e Mulheres de Areia, A Viagem forma certamente uma “trinca de
ouro” dentre todos os trabalhos autorais de telenovelas de Ivani Ribeiro.
 |
Jô (Christiane Torloni) e Fábio (NunoLeal Maia) em A Gata Comeu (1985)

| Tonho da Lua (Marcos Frota) fazendo escultura de areia em Mulheres de Areia (1993)
|
|
 |
Alexandre (Guilherme Fontes) na Cadeia em A Viagem (1994) |
AJUSTES E MUDANÇAS NO REMAKE
Contudo, mesmo com a excelente direção, alguns ajustes na história foram
realizados a fim de atualizar ou dar um toque mais moderno à trama de Ivani.
Além de algumas mudanças de nomes de personagens (por exemplo, César para
Otávio, Maria Lúcia para Beatriz/Bia e Isaura para Marroca), outras alterações
significativas e pequenos detalhes deram maior impacto e credibilidade à
história recontada. Em outros casos, suavizaram certas situações agressivas. Na
versão de 1975/76, Diná tinha uma butique, e em 1994, era dona de uma
videolocadora; Em 1975/76, Téo era um jovem advogado, como César/Otávio, mas em
1994 ele era um jovem arquiteto.
A morte da protagonista feminina, segundo reportagem da revista
Contigo!, talvez seja a parte que mais sofreu mudança de uma produção para a
outra. Em ambas as versões, Diná viveu de forma crescente um adoecimento devido
a problemas cardíacos graves, portanto tornou-se claro para os telespectadores
a fragilização da sua saúde física. No entanto, o desfecho dessa situação que
conduziu à cena da morte da personagem foi bastante diferente. Na versão
original da TV Tupi, Diná sofre um enfarte fulminante, depois de ser agredida
pelo ex-cunhado Ismael, que havia lhe dado um empurrão de forma hostil e fugido
do local, sem lhe prestar socorro. Já no remake, Diná morre a partir de uma
grande emoção de alegria, logo após o reencontro dela com a sobrinha Bia
(Fernanda Rodrigues), que havia fugido após ter descoberto o caráter desonesto de
seu pai (vivido nesta versão por Jonas Bloch).
 |
O abraço emocionado de Diná (Christiane Torloni) e Bia (Fernanda Rodrigues) |
A partir desta mesma reportagem pôde-se perceber o senso de ponderação e
a cautela apreendidos e exercidos pela escritora Ivani Ribeiro. Com uma decisão
perspicaz e criativa, o novo texto de A
Viagem rejeitou uma sequência repleta de violência física, no caso
específico, violência física contra a mulher. Ainda que manter estas cenas
fosse coerente com o texto original e com a abordagem realista proposta pela
trama, a autora achou por bem eliminá-las, a fim de suprimir ou atenuar um ato
cênico de conflito extremo.
Um comentário a parte sobre esse dilema enfrentado e solucionado pela
autora faz lembrar em parte o trabalho de outra mestra da teledramaturgia, a
ousada e brilhante Janete Clair. Em diversos casos de conflitos novelescos
semelhantes, Janete optou por mostrar situações de violência contra a mulher,
de forma “nua e crua”, sem, contudo, descuidar de evidenciar as personalidades ridículas,
patéticas e machistas dos agressores. E se Janete Clair mostrava tiques ou
traços de psicopatia ou sociopatia em personagens machistas (casos de Leandro -
Ney Latorraca - em Coração Alado,
Globo, 1981, e Jorge Palmeira, vivido por Otávio Augusto, em Sétimo Sentido), é justo também dizer
que Ivani Ribeiro mostrava os tiques ou traços de neurose em personagens leve
ou marcadamente sexistas [caso do “inseparável” casal Gugu e Tetê (Cláudio
Côrrea e Castro e Marilu Bueno) em A Gata
Comeu e mesmo a ciumenta e possessiva Diná de A Viagem].
RELEMBRANDO A TRAMA CENTRAL
Aos leitores que, por ventura, ainda têm pouco conhecimento ou lembrança
do enredo e da qualidade artística de A
Viagem, permitam-me reproduzir uma breve sinopse da novela, publicada pelo
Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, em 26/04/1997, por ocasião da primeira
reprise da novela no Vale a Pena Ver de Novo, da TV Globo: “A trama trata de
espiritualismo e vida após a morte em torno do personagem Alexandre (Guilherme
Fontes), jovem de classe média alta e mimada pela irmã Diná (Cristiane
Torloni). Alexandre é preso por assassinato e se mata na prisão. A partir daí,
coisas estranhas acontecem com pessoas que tiveram ligação com sua prisão, como
o cunhado Téo (Maurício Mattar).
Vale a pena também reproduzir o texto sobre a mesma versão de A Viagem, da jornalista Cristiane
Flores, publicado pela revista Minha Novela em 25/12/2000 (ed. nº 69, p. 50):
“Além da vida – Seguidora da filosofia espiritualista do francês Allan Kardec,
baseada na continuidade da vida após a morte, a autora Ivani Ribeiro levou duas
vezes para a telinha a história que escreveu baseada nos ensinamentos de
Kardec. A primeira, em 1976, na TV Tupi, e a segunda dezoito anos depois na
Globo. Na versão global, Guilherme Fontes foi Alexandre, um rapaz vingativo que
se suicida ao ser julgado culpado de um assassinato e, do além, se vinga de
seus inimigos: o irmão, Raul (Miguel Falabella), e o cunhado, Otávio (Antônio
Fagundes). No auge do sucesso, a novela alternava cenas no vale dos suicidas e
na colônia da fraternidade, para onde foram Otávio e Dinah (Christiane Torloni)
quando morreram.”
 |
Marocas (Yara Cortes) reencontra a filha Diná (Christiane Torloni) no Paraíso |
 |
| Alexandre (Guilherme Fontes)no umbral |
Entre as boas atuações do elenco, cabe destacar o trabalho de
interpretação, num tom contido e introspectivo, de Lucinha Lins, como a
batalhadora, responsável e sofrida Estela, que representou em certa fase
exatamente o oposto de Diná, sua irmã, que era geralmente expansiva, passional
e radical. Com a irmã, Estela tinha uma ligação extremamente fraterna e
sensitiva. As duas personagens sentiam, em inúmeras situações, uma forte
conexão, uma grande intuição de proximidade de encontro ou uma preocupação do que
se passava no íntimo e na vida pessoal de cada uma.
Além das ideias desenvolvidas dos casos de possessão espiritual, de
vidas passadas e de reencarnações (apresentadas nas duas novelas), o elo de
ligação fraterna entre duas irmãs bastante próximas, numa rápida comparação,
compôs a abordagem que trouxe as maiores semelhanças entre Sétimo Sentido e A Viagem.
E é talvez o que mais aproxima e identifica as semelhanças destas duas tramas
voltadas à temática do espiritualismo, pois foi um aspecto bastante evidenciado
em ambas. Assim, quando Diná sofre o enfarte fulminante, a personagem Estela,
que está em casa distante do fato ocorrido, mas pressente a situação e intui
com plena certeza sobre a morte da irmã; Assim, ela é acometida de um imediato e
natural sentimento de desespero e consternação.
Já em relação às ligações “inexplicáveis” do tipo ‘paixão à primeira
vista’ ou ‘meu santo não bate com o
seu’ entre os personagens Otávio, Diná e Alexandre foram explicadas aos
telespectadores no capítulo precedente ao do acidente fatal sofrido por Otávio.
Na ocasião, Otávio se submete a uma terapia de regressão espiritual conduzida
pelo médico espírita e também médium Alberto. Anteriormente, o personagem
protagonista também havia sido diagnosticado com câncer.
Nesta sessão de regressão através da técnica de hipnose, Otávio tem
visões que confirmam as suspeitas do Dr. Alberto: em uma de suas vidas
passadas, no século XIX, o advogado, Diná e Alexandre encarnavam pessoas
envolvidas num dramático desafio de vida e morte. As lembranças mostram que o lorde
Otávio havia sido apaixonado pela dama Dianne/Diná, que era reprimida pelo já
conhecido Alexandre, aparecendo naquela situação de vida passada também como um
cunhado intrometido e irmão ciumento, Impulsivo, encrenqueiro e chegado numa
situação de assédio moral. Otávio sofre novamente por não ter podido evitar o
duelo de luta corporal em que precisa matar Alexandre, para que não fosse morto
por ele. Otávio finalmente compreende seus sentimentos intensos por Diná e
Alexandre, seus traumas e suas sensações de tristeza recorrentes. No entanto,
na encarnação atual ele ainda não consegue concretizar plenamente seu amor por
Diná, em virtude do precoce adoecimento de câncer (pelo qual não vislumbrava
perspectiva de cura) e, logo em seguida, por ser atingido em um acidente de
trânsito fatal (que, por sinal, teve novamente o “dedinho” maldoso ou a
influência obsediadora, do espírito de Alexandre).
 |
| Estela (Lucinha Lins) e Bia (Fernanda Rodrigues) |
 |
Diná (Christiane Torloni) e Otávio (Antônio Fagundes) em vidas passadas |
 |
Diná (Christiane Torloni) e Alexandre (Guilherme Fontes) em vidas passadas |
O recurso narrativo da regressão espiritual a situações de vidas
passadas já havia sido utilizado de forma criativa por Janete Clair e visto pelos
telespectadores em Sétimo Sentido. O
objetivo desta autora foi o de revelar a explicação para as ligações
aparentemente insondáveis entre as personagens Luana e Priscila. Assim como na
novela da presente análise – A Viagem –,
tida como posterior (já que o remake foi reescrito e apresentado em 1994) ou
anterior (já que a versão original foi escrita e exibida em 1975-76) (dependendo
da idade e da cultura novelística dos leitores/telespectadores), na trama de
Janete, as ligações sensitivas/telepáticas entre duas ou mais personagens
sensitivas, sendo um dos casos de laços de irmandade entre mulheres (em vida
presente ou em encarnações passadas), e uma grande quantidade de situações
misteriosas de dejà vu vividas pelos vários personagens foram dramaturgicamente
explicadas em diálogos e cenas decisivas para os desfechos das narrativas.
Em ambas as novelas, estes desfechos se deram a partir de cenas que constituíram
pontos culminantes nos dois processos de terapia de regressão espiritual. O
primeiro, na trama de Janete Clair, proposto e conduzido por uma parapsicóloga;
e o segundo, no enredo de Ivani Ribeiro, por um seguidor da filosofia espírita
kardecista (em ambos os casos referendando ou a ciência ou a medicina
alternativa e a religião), Em ambos os casos, os personagens que aceitam
participar das sessões visualizam imagens que adquirem acepções diversas,
podendo ser denominadas tanto como “oníricas” ou relativas à(s) memória(s) de
vida(s) passada(s). O fato é que a partir dessas imagens reconstituídas ou
resgatadas (segundo a percepção e/ou o entendimento de cada telespectador),
ocorreram nas duas tramas dois momentos de clímax, dois momentos de insights
dos personagens Luana Camará e Otávio Jordão, retrospectivamente. Em cada um
destes atos cênicos, deu-se a conscientização e/ou a elucidação das
“pendências, querelas ou dívidas de honra ou gratidão” não resolvidas nas vidas
passadas daquela (e) personagem, sensitiva(o) e de certa forma entristecida(o)
pelo sofrimento que outro(s) provocou(aram).
No retrato da vida no além, A
Viagem configura uma encenação palpável e concreta. E esse certamente é
outro elemento ou enfoque do tema espiritualismo que a difere de Sétimo Sentido. Numa opinião bastante
pessoal e refletida, permito-me afirmar que Sétimo
Sentido e A Viagem representam
duas faces da mesma moeda. A ideia de uma moeda de duas faces valorosas seria,
a meu ver, a metáfora perfeita para representar duas visões autorais criativas
e complementares em certo sentido. As obras de Janete Clair e Ivani Ribeiro
apresentam abordagens sobre o tema do espiritualismo em parte distintas, e em
parte semelhantes e plenas de afinidades, concordâncias e visões complementares.
Talvez por seguir a filosofia espírita em toda a sua crença pessoal, a
autora Ivani Ribeiro segue adiante na questão do destino dos espíritos: da nova
condição espiritual do ser, do novo “projeto de vida” ou da nova missão
espiritual edificante e ou/redentora do ser humano. Como, por exemplo, ao
retomar desenvolvimento da história de Alexandre no plano “além da vida” do
Alexandre Veloso. Depois de ser resgatado do umbral, ou do inferno (segundo a
visão católica/evangélica do “cenário” designado como vale dos suicidas, onde
estariam as almas pecadoras e rebeldes), ele acabou sendo resgatado pelo
espírito de Diná, já consciente de sua nova condição e convertido ao bem; Mais
bondosa, amorosa, caridosa e dedicada do que em sua vida terrena, Diná se
conscientiza dos erros que cometeu nas vidas passadas e de seu comportamento submisso
ao irmão rebelde e irresponsável. Adquire nova condição espiritual e decide
continuar sendo (e se aprimorando como) um anjo de luz, juntamente com o seu
amado Otávio. Já Alexandre resolve finalmente se redimir e pede para
reencarnar, (conseguindo esta permissão), como primeiro filho do casal formado
por Lisa e Téo.
Já os personagens Otávio e Diná finalmente se casaram no além. Antes,
porém, conviveram harmoniosamente com outros espíritos elevados e guias
espirituais, ponderando sobre os caminhos que desejavam seguir e as missões que
desejavam abraçar. A presidenta da Associação Médica Espírita, Marlene Freitas
Nobre, explicou na época, em matéria publicada pela revista Contigo, que são
comuns relacionamentos que se completam no plano espiritual, pois os
desencarnados se inserem em círculos familiares ao plano terreno, e que
casamentos e novos compromissos no além chegam a ser corriqueiros.
A novela A Viagem, na versão
produzida em 1994, no seu último capítulo, mostra o casal Otávio e Diná de mãos
dadas, frente a frente, no plano espiritual e a seguir apresenta uma das mais
belas mensagens veiculadas pela teledramaturgia: Diz o texto de autoria de
Paulo Kronemberger, lido em off na última cena: “Hoje, de algum lugar longe
dessas terras, há um doce olhar só pra você... Um lugar especial de alguém
especial, de distantes origens. Um olhar de um justo coração que pulsa só a
vida... Que sorri porque ama plenamente, sem julgamentos, preconceitos nem
prisões. Hoje, como ontem, longe desses céus, há um encantador olhar só pra
você. Nesse olhar vai para você a magia da luz, a simplicidade do perdão, a
força para comungar com a vida, a esperança de dias mais radiantes de paz.
Hoje, de algum lugar dentro de você, alguém que já o amou muito e ainda o ama,
diz para você que valeu a pena ter estado nessas Terras, sob estes Céus, falando
de união, paz, amor e perdão. Poder sentir a força que faz você sorrir e
continuar o caminho que um dia aquele doce olhar iniciou pra você. Tudo isso,
só para você saber que a vida continua, e a morte é uma viagem”.
Comentários
Enviar um comentário