Refletindo sobre ascensões, quedas e metáforas de SELVA DE PEDRA

 

“Na selva das cidades somos todos iguais, as feras e as guerras pra não sermos iguais..."

 

A trajetória de um jovem de classe humilde, trabalhador dedicado, sonhador e ambicioso, porém reprimido pelo fanatismo religioso e excluído do poder econômico. O destino deste homem apaixonado por uma mulher com igual situação financeira, porém segura de seu talento e autoconfiante, ao se deparar com um meio competitivo e repleto de armadilhas numa grande metrópole. Assim, em poucas palavras, pode ser definido o personagem Cristiano Vilhena (interpretado por Tony Ramos) no remake de Selva de Pedra, uma das telenovelas lembradas da Globo da década de 1980.

 Parece até um pouco engraçado pensar hoje sobre a “modernização” da trama, divulgada na ocasião pela imprensa especializada, para uma história inspirada na obra clássica de Janete Clair (1925-1983), levada ao ar pela primeira vez em 1972. Essa constatação pode ser feita ao se verificar a ampla sintonia com temas e situações contemporâneas e com o olhar crítico e ácido da realidade brasileira demonstrado por duas novelas globais do mesmo horário, que são justamente as anteriores imediatas, “Roque Santeiro” e “Corpo a Corpo”. Nesse sentido, um dos primeiros remakes da teledramaturgia brasileira, que produzido no mesmo formato e na mesma emissora da exibição original, trouxe um aspecto meio incômodo de nostalgia do romantismo de outra época.

 Em 1986, uma das grandes sensações da imprensa e da crítica especializada em novela de televisão foi a de antecipar ou comentar as cenas tidas como sensuais que compuseram a história e que foram apenas insinuadas na versão original (que não puderam ser produzidas, em razão da censura estatal acirrada).

 Contudo, um dos méritos principais do remake foi o de tornar mais conhecida e tecno-visualmente colorida a história impactante que literalmente parou o país diante da TV. Pode-se afirmar isso pelo simples fato da versão original ter conquistado a marca estarrecedora de picos de 100% de audiência, mais ou menos na metade da trama. E, num capítulo aparentemente comum cuja revelação principal não traria a solução de nenhum grande mistério para o público. Prova cabal, incontestável, de que 13 anos antes os telespectadores brasileiros estavam realmente envolvidos com a trama criada por Janete Clair, e realmente torceram pelo reencontro dos personagens Cristiano com a sua amada, a humilde escultora Simone Marques, transformada na renomada e reconhecida Rosana Reis, sua identidade falsa a partir dos documentos de uma irmã falecida. Mérito não apenas da imaginação sagaz e delirante de Janete Clair, mas também dos intérpretes dos protagonistas da versão original, os artistas Francisco Cuoco e Regina Duarte.

 Em 1972-1973, os censores dos governos militares fizeram questão de meter o “bedelho”, para reprimir alguns comportamentos e atitudes dos personagens de Selva de Pedra, Tais ações e diálogos seriam, segundo eles, inapropriados para serem exibidos na teledramaturgia brasileira, além de serem indesejados para o entretenimento preconizado pelo governo “revolucionário” da época, que não admitia questionamentos e muito menos a liberdade criativa de artistas, autores e diretores de televisão.

 Felizmente, a autora Janete Clair conseguiu redirecionar a trama e manter algumas de suas idéias criativas e ousadas, considerando ainda que o público a apoiava, prestigiando a novela com grande audiência. Além disso, conseguiu dar um desfecho inteligente e coerente para a trama. O que também deve ter deixado a “Dona” censura na maior saia justa. Bem feito pra eles, diria o público da época em alto e bom som, caso fosse verdadeiramente livre para se expressar. Mas, como certamente não era, a melhor tradução dessa expressão reprimida foi sem dúvida o altíssimo Ibope e o eletrizante final criado e assistido pelo público.

 Em 1986, com a repetição de muitas das situações criadas pela trama de 1972, ou modificadas devido às interferências da censura, os personagens revividos seguiram quase a mesma linearidade e marcaram novamente as memórias afetivas dos telespectadores brasileiros. Além desse aspecto, as músicas-temas dos personagens principais determinaram boa parte do brilho e do sucesso da novela atualizada. É quase impossível dissociar as canções românticas da trilha sonora das lembranças de Selva de Pedra (1986). Este será o assunto de um tópico especial a ser analisado por este blog, num dos próximos posts. Mas, só para destacar previamente: a seleção musical do remake protagonizado por Tony Ramos e Fernanda Torres é um dos pontos altos do folhetim adaptado. E, segundo que consta em grande parte dos artigos especializados, situação semelhante havia ocorrido quando da exibição da produção original.

 Selva de Pedra é também uma das novelas campeãs de relançamentos e reedições, e até nisso, de certa forma, foi meio que privilegiada pelo acaso e pelas oportunidades. Em 1975, foi reprisada em edição compacta, no mesmo horário nobre, ocupando a vaga da então censurada primeira produção de Roque Santeiro [proibida pela censura do (des) governo da época e com esta imposição tendo sido noticiada apenas e tendo que ser acatada justamente no dia da estreia programada]. Em 2013, foi lançada em DVD pela Globo Marcas. E em 2007, foi adaptada para outro veículo e formato: no caso em livro (romance), a partir do trabalho e adaptação feita pelo escritor Mauro Alencar (estudioso da teledramaturgia brasileira e autor também do livro “A Hollywood brasileira: panorama da telenovela no Brasil, pela Editora SENAC, em 2002).

 A trama apresentada em 1986 foi uma adaptação bastante fiel e modernizante do texto de Janete Clair, porém o resultado ficou muito aquém ou inferior ao sucesso avassalador conquistado pela produção original na década de 1970. A favor do remake, pode-se dizer que os novos roteiristas tiveram também que contornar situações bastante adversas, como mudanças de diretores e de direção geral, e principalmente o “peso” de reescrever um texto de uma escritora considerada um verdadeiro ícone da teledramaturgia brasileira. Sob o ponto de vista técnico, a atualização foi conduzida sem sobressaltos ou derrapagens e nem grandes arroubos de criatividade pelos escritores Regina Braga (1941-1999) e Eloy Araújo (1938-2019).

 Cabe destacar que cada nova edição ou lançamento oficial da novela Selva de Pedra original apresentou pequenas diferenças. Explicando melhor: a reprise e o DVD tiveram novas edições, sendo que ambas foram feitas a partir do material produzido e exibido originalmente entre 1972 e 1973; Já o remake televisivo de 1986 e o livro adaptado por Mauro Alencar em 2007 tiveram atualizações das épocas retratadas, sempre passando a ambientar a história de Cristiano e Simone para o momento contemporâneo da exibição ou do lançamento, mas sempre os mantendo como jovens interioranos. Ou seja, o que muda são apenas as características das tecnologias, das modas ou dos costumes. Na novela de 1972 e no remake de 1986, um dos meios de comunicação recorrentes é a carta. Já na adaptação literária, os personagens fazem uso habitual de telefone celular.

 Os adaptadores responsáveis pelo remake se propuseram de fato a atualizar a trama nos moldes criados pela mais popular autora de telenovelas da Rede Globo dos anos 1970. A maioria das situações, cenas, diálogos e desfechos decisivos foram recriados e repetidos com grande profissionalismo e apuro artístico, num trabalho notável tanto do elenco como da equipe técnica.

 Porém, mais do que todos os demais artistas referidos, destaca-se na trajetória de Selva de Pedra (1986) a plena adesão dos adaptadores a um estilo “mediúnico” de conexão com a realidade, que foi uma das marcas da autora Janete Clair. Aliás, vários telespectadores que assistiram a ambas as versões garantem que o texto para o remake foi minimamente diferenciado, o que denota uma preocupação e um respeito notável com a essência do original. Percebe-se que houve na segunda versão um trabalho meticuloso que enfatizou bastante a sensualidade do trio de protagonistas, que reviveu o dramático triângulo amoroso. Algo que não se consegue perceber num rápido contato com a versão original. Ao menos através do resumo básico que o público mais recente pôde assistir na televisão ou na internet, a partir de 2012, após uma edição do inesquecível quadro Novelão do Vídeo Show. Diversas fontes atestam que a mesma diferença ocorre em relação ao DVD oficial, uma vez que a história original realmente não dava grande ênfase ao aspecto da sensualidade dos atores e atrizes em geral, mas sim ao romantismo. 

 Na concepção e criação fictícia deste drama especificamente, a autora Janete Clair teria tomado por inspiração pelos dois acontecimentos reais, sendo que um deles (o segundo mote ou notícia amplamente divulgada e extensamente conhecida) já havia inspirado pelo menos um livro/romance (“An American Tragedy”, por Theodore Dreiser) e dois filmes hollywoodianos (“Uma Tragédia Americana”, de Joseph Von Sternberg; e “Um Lugar ao Sol”, de George Stevens), grandes sucessos do cinema internacional:


 - Na década de 1960, “um tocador de bumbo numa praça no interior de Pernambuco foi ridicularizado por outro rapaz e o matou”. [Fonte: livro “Nossa Senhora das Oito”, (de Mauro Ferreira e Cleodon Coelho, Editora MAUAD, 2003), pág. 69];

 - Em 1906, no estado americano de Nova York, uma jovem foi morta pelo namorado, durante um passeio de barco num lago, situado nas proximidades de um hotel. A jovem estava grávida dele, mas o rapaz não teve a dignidade de assumir sua responsabilidade na relação. Planejou e executou um crime de assassinato, mas foi descoberto tentando fugir do local. Preso logo em seguida, foi levado à julgamento e condenado à pena de morte. Os acontecimentos trágicos relacionados à história deste casal foram romanceados pelo escritor Theodore Dreiser em seu livro “An American Tragedy”, publicado em 1925. Posteriormente, o livro serviu de inspiração para dois filmes produzidos por Hollywood: “Uma Tragédia Americana” – 1931, dirigido por Joseph Von Sternberg; e “Um Lugar ao Sol” – 1951, dirigido por George Stevens. (Fonte: site da distribuidora Versátil Home Vídeo – www.versatilhv.com.br). E tais fatos também serviram de inspiração parcial para a criação da trama de Selva de Pedra. [Fonte: livro “Nossa Senhora das Oito”, (de Mauro Ferreira e Cleodon Coelho, Editora MAUAD, 2003), pág. 69];

 

 De modo geral, pode-se dizer que a novela Selva de Pedra (1986) teve ótimos resultados ao abordar, embora possa-se falar de certa forma em rever ou revisitar, um amplo leque de temas recorrentes na teledramaturgia: o desejo de ascensão social e a ambição, as discussões de gênero, o machismo e as pressões sociais enfrentadas pelas mulheres na sociedade brasileira (vale lembrar que a Fernanda é herdeira de uma grande fortuna, só que não, pois só vai conseguir a posse de fato de seus bens que lhe cabem por herança caso se casar, segundo o seu pai machista já falecido impôs em testamento), por isso, para a geração atual, se justifica em boa parte a sua bipolaridade, obsessão, esquizofrenia, psicopatia ou o que for; o mesmo vale para Cíntia: ela é mãe, só que não, aos olhos da sociedade tradicional setentista, pois não pode, ou lhe é tirado esse direito, de assumir a maternidade, a não ser que case conforme a tradição e sonha o seu pai; em relação ao casamento de Cristiano e Simone, então, percebe-se ali um relacionamento tóxico, em muitos momentos, especialmente, é óbvio da parte do Cristiano.

 Torna-se interessante observar as diferenças básicas entre os filmes americanos mais o episódio real ocorrido em Pernambuco aludido e a novela brasileira (ambas as versões, tanto a de 1972 como a de 1986). A grande diferença é que Janete Clair manteve a característica da ambição do seu protagonista masculino, mas nas duas situações catalisadoras de mudanças ou reviravoltas, justamente as que foram decisivas ou momentos chaves na novela, e bastante inspiradas pelos dois eventos reais, ela retira a culpabilidade ou a intencionalidade de uma situação de violência ou agressão, que acabam acontecendo também, mas sempre de forma acidental, ou pelo menos sem a culpa do protagonista masculino, que no caso vem a ser também o galã da novela.

 Ainda a favor da novela global de ambas as versões, pode-se dizer que ela construiu um dos painéis de tramas dramáticas das mais realistas já apresentadas pela teledramaturgia. Além de discutir o machismo e o sexismo presentes na sociedade brasileira, foi talvez uma das primeiras a abordar o fanatismo religioso, com o controverso e atemorizado personagem Sebastião, pai de Cristiano. Promoveu um retrato realista das agruras do universo urbano, desde a trajetória do humilde casal Cristiano e Simone; a ingenuidade da Diva; as excentricidades de Laura; as alegrias e dificuldades dos moradores da pensão da Fanny; a arrogância e os ressentimentos de Caio; as armações e perseguições do golpista gaiato e malandro que flerta com a marginalidade e acaba entrando para o mundo do crime, embora carregue um passado triste, Miro; a bipolaridade, a paixão e a loucura da Fernanda, toda trabalhada na autoestima, na vingança obsessiva e nos transtornos mentais, e todas as mudanças comportamentais desses e outros personagens, em busca de riqueza, conforto, amor e um lugar ao sol.

 Muito além do romantismo, Selva de Pedra marcou várias gerações em épocas em que a ascensão e a convivência das pessoas de várias classes sociais era algo bastante possível e almejado, não apenas pelos tidos alpinistas sociais, alcunha esta dada seguramente aos vilões e vilãs nas telenovelas, mas também pelas pessoas que batalhavam honestamente e evoluíam socialmente após uma carreira consistente, após jornadas de trabalho árduo, esforço e dedicação, enfim por mérito. Selva de Pedra mostrou isso também, mas sem esquecer o clássico final feliz, em que os protagonistas conseguiram finalmente se reencontrar e comemorar sua união, passeando e percorrendo as escadarias contínuas, corredores e espaços abertos em um navio de luxo. Esta parece ser (e é) a coroação e uma metáfora bem apropriada para uma novela vitoriosa (embora controversa e contraditória em muitos desfechos, devido a inúmeras razões, mas sempre emocionante): um navio recém-construído, imponente e aportado num porto ou estaleiro tranquilo, mas pronto para zarpar e iniciar uma viagem fabulosa, ao som de acordes musicais inesquecíveis.

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