SONS PARA O DESCANSO DOS GUERREIROS: A TRILHA SONORA SUAVE E RELAXANTE DE CORPO A CORPO

Ao contrário da sonorização incidental, a trilha sonora oficial de Corpo a Corpo, dividida em nacional e internacional, atenuou a tensão constituída pela trama e acentuou o romantismo e as emoções dos telespectadores e apreciadores da música pop. Fez muito bem aos ouvidos dos noveleiros, opiniões compartilhadas por críticos e fãs. Um verdadeiro descanso e relax sonoro para uma trama eletrizantes.

Tanto as faixas do LP nacional como as do internacional tiveram uma unidade plena e de altíssima qualidade musical. É difícil escolher o melhor tema quando se tem um mix de gêneros e estilos musicais dos mais variados, porém a maioria das canções tem em comum o fato delas emularem sensualidade, paixão e nostalgia.

 

LP CORPO A CORPO NACIONAL

Direção de Produção: Guto Graça Mello

Supervisão de Repertório: Francisco Santos Jr

Montagem: Ieddo Gouveia

Gravadora: Som Livre

Capa:

Foto: J. R. Duran

Produção: Julinho

Direção de Arte: Felipe Taborda

 


FAIXAS:

LADO A:

UM GRANDE AMOR – Raimundo Fagner

CORRA E OLHE O CÉU – Beth Carvalho

NADA MAIS (LATELY) – Gal Costa

ONDE É QUE A GENTE VAI? – Dalto

PARA LENNON E McCARTNEY – Elis Regina

PAPEL MARCHÊ – João Bosco

TÃO BEATA, TÃO À TOA – Marina

 

LADO B:

PRA EU PARAR DE ME DOER – Maria Bethania

SORVETE – Caetano Veloso

UM DESEJO SÓ NÃO BASTA – Simone

BABY SUPORTE – Barão Vermelho

FÉRIAS DE VERÃO – Sandra Sá

A MULHER INVISÍVEL- Ritchie

DÊ UM ROLÊ – Zizi Possi


 Abrindo o primeiro LP, a balada “Um Grande Amor”, de Fagner, tema do ‘príncipe de conto de fadas’ Cláudio Fraga Dantas, vivido por Marcos Paulo, e fez muito bonito, embora esteja entre os hits menos lembrados do cantor cearense. No mesmo estilo, “Corra e Olha o Sol”, samba delicado de Beth Carvalho, que embalou cenas da batalhadora Sônia Rangel e trouxe uma identidade musical muito antenada com os conflitos desta personagem. Foi o tema individual dela.

 Seguem-se cinco mega hits, amplamente executados na novela e nas programações de rádio: “Nada Mais”, de Gal Costa, balada que serviu como uma luva como tema de Tereza – Glória Menezes (e não de Eloá – Débora Duarte, como atribuem equivocadamente alguns blogs e fontes mais desatentos). Trata-se de uma versão de “Lately”, grande sucesso do cantor americano Stevie Wonder. A versão cantada por Gal Costa ganhou inclusive um clipe produzido e exibido pelo Fantástico;

 “Aonde É Que a Gente Vai?”, rock new wave do cantor niteroiense Dalto, que foi tema para os dilemas de Rafael, vivido por Lauro Corona; “Para Lennon e McCartney”, na voz de Elis Regina (1945-1982), falecida dois anos antes, mas que, com essa canção, que foi um dos temas gerais de Corpo a Corpo, teve um revival e sucesso póstumo merecidos; “Papel Marchê”, interpretada por João Bosco, também uma canção super poética e calma, que foi tema do personagem do ator Antônio Fagundes, o ‘maridão’-Osmar (como era carinhosamente chamado pela apaixonada e ambiciosa Eloá);

 E, para fechar o lado A, o rock sexy “Tão Beata, Tão à Toa”, por Marina Lima, que foi o tema de abertura e traduziu com muita propriedade o conflito principal e o drama desenvolvido pela novela. A letra é de autoria da compositora Naila Skorpio em parceria com Guto Graça Melo. Uma sacada perfeita dos diretores musicais.

 O lado B abre com “Pra Eu Parar de Me Doer”, de Maria Bethânia, tema do ‘idílio’ amoroso ou dos muitos momentos românticos vividos pelo casal Osmar e Eloá. Segue com “Sorvete”, rock suave cantado por Caetano Veloso, que foi tema do charmoso e moderno Zeca Maciel, papel de Caíque Ferreira;

 “Um Desejo Só Não Basta”, balada romântica interpretada por Simone, cantora já veterana em trilhas de novela. No caso, a canção foi um segundo tema de Sônia, alçada a um dos grandes destaques e personagem icônico da novela, muito por conta do drama racial e social enfrentado e vencido pela sua personagem. (É interessante ressaltar que a torcida a favor do casal mobilizou os telespectadores, tendo sido uma das primeiras vezes em que o racismo estrutural presente na cultura brasileira foi mostrado e superado na teledramaturgia.)

 Ainda no lado B há destaque para duas canções pouco lembradas: “Baby Suporte”, da banda Barão Vermelho; e “Férias de Verão”, interpretada por Sandra de Sá e escolhida como o tema de Bia (Malu Mader).

 Além destas, dois mega sucessos da época: “A Mulher Invisível”, do cantor britânico-brasileiro Ritchie, outro veterano das trilhas sonoras da TV Globo; e “Dê um Rolê”, rock animado da versátil Zizi Possi, que retornou como tema de abertura da novela das sete Rock Story (Globo, 2016/2017), desta vez na voz da cantora Pitty. Cabe dizer que em Corpo a Corpo estas duas últimas canções da trilha nacional foram temas gerais, porém a música de Ritchie ganhou enorme popularidade e transformou-se num hit arrasa-quarteirão nas paradas, ganhando também a produção de um clipe para o Fantástico.

 Houve ainda a inclusão da música “Coração de Estudante”, de Milton Nascimento, que complementou a trilha, porém, infelizmente, ficou ausente do álbum nacional. A canção emblemática do movimento das Diretas Já surgiu na novela numa apresentação vip, num encontro ou roda de amigos na casa de Zeca, onde o cantor estava presente e deu uma canja aos amigos/personagens da trama. Em seguida, em versão instrumental predominantemente, foi um tema importante do casal Cláudio e Sônia. A explicação para a curiosidade despertada por esta faixa sonora é a de que o LP Corpo a Corpo Nacional, na ocasião, já havia sido editado, portanto a trilha nacional oficial já estava pronta para ser lançado no mercado. A mesma versão instrumental da música de Milton Nascimento já havia sido inserida nas chamadas de uma novela anterior da Globo. Foi em anúncios da estreia de Amor com Amor se Paga, grande sucesso do primeiro semestre de 1984, no horário das seis.

 

TRILHA INTERNACIONAL REPLETA DE HITS

LP CORPO A CORPO INTERNACIONAL


Supervisão: Sérgio Motta

Montagem: Ieddo Gouveia

Gravadora: Som Livre

Capa:

Foto: J. R. Duran

Produção: Julinho

Direção de Arte: Felipe Taborda

 



FAIXAS:

LADO A:

TOO LATE FOR GOODBYES – Julian Lennon

STILL LOVING YOU – Scorpions

BODY ROCK – Maria Vidal

WHAT ABOUT ME? – Kenny Rogers, Kim Carnes & James Ingram

SEX APPEAL – Sophie St. Laurent

AUTUMM – Season of Love

TASTE SO GOOD – File 13

 

LADO B:

PURPLE RAIN – Prince & The Revolution

MISSING YOU – Diana Ross

I FEEL FOR YOU – Chaka Khan

EDGE OF A DREAM – Joe Cocker

MAKE NO MISTAKE, HE’S MINE – Barbra Streisand dueto com Kim Carnes

BONITA – Maysa

AGADOO – Black Lace

 

 A seleção musical do LP Corpo a Corpo Internacional marcou praticamente toda a geração de fãs de novelas na década de 1980. Impossível dissociar a trilha da novela mais injustamente “esquecida” de Gilberto Braga de mega hits musicais inesquecíveis como “Purple Rain”, de Prince, e “Missing You”, de Diana Ross, que até hoje povoam as programações de rádio voltadas aos flashbacks internacionais.

 Mas, o segundo LP teve muitos outros destaques. A começar pela faixa que abre o lado A do disco: “Too Late for Goodbyes”, rock cantado de modo suave e bem rimado, de Julian Lennon, que vem a ser ninguém mais ninguém menos que o filho primogênito de John Lennon, de quem herdou boa parte de sua sensibilidade artística e maturidade precoce. Curiosidade extra: a história do cantor na infância foi o tema da canção “Hey Jude”, composta e interpretada por Paul McCartney, bastante conhecida pelo público brasileiro pela versão de Kiko Zambianchi, que um dos temas principais da novela das sete Top Model (Globo, 1989/1990).

 A canção da trilha de Corpo a Corpo talvez seja o único grande hit conhecido deste cantor no Brasil, pois ele acabou não emplacando uma carreira comercial massiva na música pop internacional. A música também é lembrada por um solo bem marcante executado por gaita de boca, instrumento típico bretão, ou escocês. “Too Late for Goodbyes” foi tema do garoto Ronaldo, vivido por Selton Mello, pleno de inteligência e vivacidade, no esplendor de sua carreira como ator infantil.

 Seguindo as faixas do lado A, os sucessos continuam: a balada “Still Loving You”, da banda alemã de rock Scorpions, foi uma das campeãs de execuções no segmento “Cenas do próximo capítulo”; ao lado da faixa seguinte: “Body Rock”, rock vibrante da americana Maria Vidal, e tema de um filme homônimo, musical protagonizado por Lorenzo Lamas.

 Em seguida, ‘virada de disco’ para um som mega ultra romântico: “What About Me?”, cantada pelo trio de duração efêmera (seriam eles um trisal? ... Uma grande dúvida!? Ou: Que ousadia para a época! Bom, trisal ou trio de músicos cantando sobre triângulo amoroso não interessa para os fãs da trilha, pois o que importa mesmo é a história e a qualidade da música.) formado por Kenny Rogers, Kim Carnes e James Ingram, e que foi tema do casal Bia e Rafael. A música tinha tudo a ver com o casal, ainda mais porque Bia, em certa fase da trama, também se envolvia em um imbróglio amoroso formado por ela, Rafael e Zeca, ex-noivo dela e grande amigo e chefe de Rafael. Por isso, o perfil da personagem fechava 100% com a letra da canção, e a cantora Kim Carnes cantava quase que exatamente o drama de Bia.

 O lado A tem ainda três faixas pouco lembradas e pouco executadas durante a novela: a dançante “Sex Appeal”, de Sophie St. Laurent; a instrumental melancólica “Autumm”, creditada à banda Season of Love; e a instrumental eletro pop “Taste so Good”, do grupo musical File 13.

 O lado B abre com o maior hit do ano de 1984: a clássica e icônica canção “Purple Rain”, simplesmente a obra-prima mais conhecida e lembrada de um dos músicos e compositores pop mais talentosos dos séculos 20 e 21, o cantor e instrumentista musical Prince (1958-2016).

 A canção que havia tema principal do filme homônimo, estreado também em 1984, na novela embalou os romances do personagem Zeca, especialmente com a sua pretendente a tímida Alice (Luiza Thomé), porém o namoro não deu certo, pois Zeca era bastante instável e preferiu a extrovertida Heloísa (Isabela Garcia). Mas, apesar deste romance não ter evoluído, são lindas e memoráveis as cenas de Zeca e Alice nadando e namorando na piscina da casa do publicitário, ao som desta balada etérea e inebriante.

 Segue outra balada inesquecível: “Missing You”, cantada por Diana Ross, tema de Lúcia (Joana Fomm) e de seus conflitos amorosos, especialmente ao relembrar e reestabelecer o casal apaixonado, briguento, infeliz e trágico, constituído por ela e Amaury (Stênio Garcia). A sua letra foi composta como uma homenagem da cantora americana ao amigo, parceiro de trabalho e também cantor Marvin Gaye (1939-1984) que, meses antes, havia sido assassinado pelo próprio pai depois de uma briga familiar. Dessa forma, o sentido da música é, na realidade, um lamento, um tributo e uma manifestação expressa de saudades por uma grande amiga. A canção logo atingiu as paradas mundiais, mas no Brasil, ficou também marcada pelos dramas da personagem Lúcia Gouveia, mais uma megera alpinista social da galeria de vilãs criadas por Gilberto Braga e interpretada com brilhantismo e carisma por uma de suas atrizes preferidas.

 Segue-se a faixa “Feel for Good”, da cantora americana de hip-hop Chaka Khan (na verdade trata-se de uma regravação de um sucesso de Prince da década de 1970), que iniciava sua carreira exitosa como uma das maiores expoentes deste estilo e gênero musical, bem como de outros gêneros como jazz, funk e rhythm’n’blues. Depois do break em Partido Alto (Globo, 1983/1984), havia chegado a vez do hip-hop em Corpo a Corpo. Também teve enorme destaque no segmento “Cenas do próximo capítulo”;

 “Edge of a Dream”, balada preciosa e pouco lembrada do cantor roqueiro anglo-americano Joe Cocker (1944-2014) foi o tema de Ângela (Andrea Beltrão) e também serviu como tema internacional do casal Sônia e Cláudio.

 Como tema internacional de Eloá foi escolhida a canção “Make No Mistake, He’s Mine”, pelo duo feminino breve e pontual formado por Barbra Streisand e Kim Carnes (vejam que a cantora do mega hit “Bette Davis Eyes” está presente nos dois lados do segundo LP da trilha. Acontece que a cantora havia sido indicada ao Grammy 1983 como melhor cantora vocalista de rock pelo álbum ”Voyeur”, e a partir de então passou a receber e aceitar vários convites de amigos e parceiros de trabalhos conjuntos. Estas as músicas da trilha de Corpo a Corpo, que têm a sua participação como cantora em trio e duo, além da canção solo “Invitation to Dance”, estiveram todas as três nas listas das paradas da revista Billboard em 1985, tamanho o sucesso da cantora, sendo a única artista do mundo a conseguir esta façanha, segundo o site last.fm. Tá explicado o mistério então).

 E encerram o disco duas faixas mais esquecidas pelas playlists, porém ainda assim expressivas: a balada triste “Bonita”, da cantora brasileira Maysa (1936-1977), dando a sua voz a uma composição de Tom Jobim e Ray Gilbert, composta em 1970; e o rock empolgante “Agadoo”, da banda inglesa Black Lace, emulando ritmos caribenhos.

 Sobre esta última faixa, várias curiosidades. De cara, pensamos se tratar de uma banda caribenha ou havaiana, ainda mais porque a letra fala em ‘pineapple’ (“abacaxi”), hula, ukulelê, ‘beach’ (“praia”), Havaí, etc. Mas, não. Trata-se de um grupo musical inglês formado originalmente por quatro integrantes, e depois reduzido a uma dupla, quando realmente fez sucesso. Pesquisando no Google, em sites de letras traduzidos, descobri que a expressão e título da música ‘Agadoo’ não encontrei tradução em lugar algum, até o momento. Cheguei à conclusão que é apenas uma onomatopeia, ou seja, é uma expressão inventada para reproduzir um som qualquer. Não significa nada que possa ser traduzido racionalmente.

 Em Corpo a Corpo, “Agadoo” foi um tema geral. Pode-se deduzir que tenha sido incluída apenas por razões comerciais, para vender a trilha, uma vez que era a música da moda, ou “da farra da moda”. Mais ou menos como aconteceu com a música “Macarena”, da dupla espanhola Los Del Rio, em Explode Coração (Globo, 1995/1996). Seja como for, foi mais uma canção que ‘grudou como chiclete’ e descontraiu os telespectadores mais sisudos até enjoar e saturar. Mas, opinião pessoal, foi uma forma um pouco simples para fechar um disco excelente. pois a canção, por reproduzir a moda da época, tornou-se bastante datada.

 Sobre as artes gráficas dos dois álbuns oficiais lançados pela Som Livre, predomina o bom gosto. Embora muitos fãs conservadores considerem as capas dos LPs ousadas, especialmente pela foto do álbum nacional, que tem semi-nudez e onde um casal está numa cama abraçado e cuja encenação tem conotação afetiva-sexual, ambas as concepções têm total relação com a questão do embate corporal e a tensão sexual que a novela Corpo a Corpo tanto evidencia, tanto em sua trama como em sua abertura. A foto do primeiro LP não mostra nada que pudesse chocar verdadeiramente até mesmo os telespectadores mais puritanos, uma vez que nem mesmo os rostos dos personagens aparecem no quadro, mas apenas os braços e as costas do casal.

 Da mesma forma que a capa do LP nacional, a do disco internacional tem uma de concepção bem semelhante. Ambas as capas mostram fotos de casal em situações românticas, mas com uma clara diferença. O primeiro LP traz um casal despido e envolto em lençóis, numa inspiração algo semelhante à foto do casal de amantes que foi concebida para o LP Louco Amor Internacional (Globo, 1983), por sinal, trilha de outra novela de autoria de Gilberto Braga. Embora naquele produto, a foto tenha sido escurecida, ou seja, pode ser vista somente as penumbras ou as silhuetas de um homem e uma mulher abraçados. Já a capa do LP Corpo a Corpo Internacional mostra um casal (novamente cortando os rostos dos personagens, embora a foto permita a visualização de partes das faces) vestidos em trajes de gala, numa festa ou num encontro eventual, numa clara referência a um momento de aproximação afetiva-sexual.

 Certamente, as capas dos LPs e as músicas selecionadas para a trilha combinaram muito melhor com o título CORPO A CORPO do que se fosse com o nome original (porém provisório e descartado pela direção da emissora) da novela, que teria sido, segundo diversas fontes, OLHO POR OLHO. Tanto o título, quanto a trama e a trilha de CORPO A CORPO, todo o conjunto, comprovadamente devido aos altos índices de audiência atingidos, transmite a ideia de união dos personagens ou de luta honesta e paritária. Tudo a ver com os conflitos, romances, reviravoltas e desfechos folhetinescos apresentados pela novela.

 

[Pesquisa e texto de Luís Carlos Festl; Fontes: sites www.teledramaturgia.com.br, de Nilson Xavier, Memória Globo.Com e Wikipédia; livro TELETEMA, de Guilherme Bryan e Vincent Villari (Editora Dash, 2014), entre outras]

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