TOP 10 NOVELAS RURAIS REALISTAS E/ OU “FANTASIOSAS APRESENTADAS COMO SE FOSSEM REALISTAS”
TOP 5 NOVELAS RURAIS REALISTAS:
1- O SALVADOR DA PÁTRIA (Globo, 1989) – direita corrupta, esquerda corrupta; surgimento de um líder político honesto (‘Sassá’, interpretado com maestria mediúnica por Lima Duarte) e de uma empreendedora rural consciente (‘Marina Sintra’, vivida com sobriedade irretocável por Betty Faria). Texto ousadíssimo e de um realismo ímpar, que inclusive tocou em feridas políticas ainda muito doloridas e abertas na sociedade brasileira, por revelar o tráfego (ou seria, o tráfico?) de influências e o corporativismo corrupto no meio político, retratando-o extrema clareza os meandros das manobras e/ou omissões de um grupo de políticos influentes envolvidos com uma máfia de traficantes de drogas. E o final foi “apoteótico” e surpreendente como quase sempre é a revelação de um escândalo real: o protagonista da novela, que havia se tornado prefeito da pequena cidade (fictícia) de Tangará, produtora de laranja, denunciou o esquema e os criminosos da organização mafiosa em rede nacional de televisão, impedindo assim que novos crimes se concretizassem e fazendo com que os bandidos fossem presos pela polícia. E, assim, o valor e os méritos das ações de Sassá como líder político justo foram finalmente reconhecidos através de uma grande aclamação popular, da mesma forma que acontece na vida real quando, por exemplo, grandes times de futebol ou atletas conquistam vitórias em grandes campeonatos;
2- FERA RADICAL (Globo, 1988) – pioneira em tratar o trabalho rural com empatia, superação de preconceitos e dinamismo, além de mostrar a ciência e tecnologia bem retratadas ou inseridas ao setor econômico agropecuário. Além de se destacar pelo raro realismo na abordagem do universo rural, a novela de autoria Walther Negrão é possivelmente a número 1 no conceito de rural chique, ou seja, trouxe um outro reconhecimento para a concepção feliz de seu estilo autoral, estilo este que o autor pode repetir em outras produções como DESPEDIDA DE SOLTEIRO, em 1992, e DESEJO PROIBIDO, em 2007-2008;
3- PANTANAL (Manchete, 1990) – além do respeito à ecologia, o drama e a “transformação” imediata da maternidade de Maria Marruá (Cássia Kiss) após o nascimento da Juma é um momento épico realista e comovente, um grande ícone da trama e, historicamente, um momento notável e clássico da teledramaturgia brasileira, criado e escrito por Benedito Ruy Barbosa. O remake da TV Globo, escrito por Bruno Luperi, neto do autor, em 2021, resgatou o valor artístico da obra de importância imensurável produzida Manchete, que com este folhetim se projetou nacionalmente e teve seu apogeu de seu prestígio. Especificamente na teledramaturgia, a telenovela Pantanal notabilizou-se por revelar aos telespectadores um Brasil até então desconhecido;
4- ESCRAVA ISAURA (Globo, 1976) – a novela que figura entre as mais comercializadas de toda a história da teledramaturgia mundial foi escrita por Gilberto Braga, a partir da obra literária homônima de Bernardo Guimarães, publicada originalmente em 1875. Corajosa, pioneira e vanguardista em abordar o tema da escravidão rural, em plena ditadura militar, um assunto preponderante da realidade nua e crua do universo rural brasileiro do século 19 e ainda nos dias atuais, que o autor Gilberto Braga repetiu ao escrever a minissérie ANOS REBELDES, de 1992, e outra novela de sua autoria, no caso, outra que foi apresentada no horário das 18 horas, FORÇA DE UM DESEJO, de 1999; e
4- CABOCLA (Globo, 2004) – em seu texto, adaptado por Benedito Ruy Barbosa, o cotidiano de camponeses simples e dedicados e a disputas por terras agricultáveis e pelo poder político e econômico bem dosada numa trama brejeira e de época, porém realista e atual, e como se trata de um remake, pode-se dizer também que foi muito bem readaptada, pelo fato de que em sua versão original, apresentada em 1979, seu texto foi extremamente burilado e inteligente escrito, ou feito, escrito com simplicidade e exatidão, sob medida para a liberação da censura do governo militar da época. As adaptações de Cabocla (obra literária de Ribeiro Couto, publicada originalmente em 1931), assim como as versões televisivas de Sinhá Moça (obra literária de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, publicada originalmente em 1950) foram todos “gols de placa” do autor Benedito Ruy Barbosa, bastante familiarizado com o subgênero de “telenovelas rurais”, permanecendo nesta primeira lista de folhetins realistas, com conteúdos e conflitos dramáticos densos, profundos e consistentes.
TOP 5 NOVELAS RURAIS “FANTASIOSAS APRESENTADAS COMO SE FOSSEM REALISTAS”:
1- O OUTRO LADO DO PARAÍSO (Globo, 2017-2018) – ênfase na exploração e posse de terras valiosíssimas ou superestimadas contendo jazidas de esmeraldas, mas também muito propícias à monocultura da soja na região do Jalapão, no estado de Tocantins; além do fato curioso de que muitos dos “segredos” da trama surgem, são descobertos ou se resolvem no bar/bordel ou no quilombo da novela;
2- TERRA E PAIXÃO (Globo, 2023-em exibição) – ênfase na exploração e posse (e/ou sucessão) de terras valiosíssimas ou superestimadas contendo jazidas de diamantes, mas também muito propícias ao binômio de culturas agrícolas soja/milho na cidade (fictícia, obviamente) de Nova Primavera, localizada no Cerrado brasileiro, no estado do Mato Grosso do Sul; além do fato curioso de que muitos dos “segredos” da trama surgem, são descobertos ou se resolvem no bar/bordel ou na reserva indígena da novela;
3- VELHO CHICO (Globo, 2016) – o discurso desenvolvimentista pró-cooperativismo foi num tom de puro marketing, com diálogos pra lá de ingênuos e bajuladores de políticas e sistemas institucionais e comerciais estabelecidos, porém problemáticos, do setor agropecuário brasileiro. Esta foi a minha percepção ao final da primeira fase, quando decidi não mais acompanhar assiduamente os demais capítulos. Proselitismo, excesso de reverência a ancestrais tiranos, egocêntricos ou egoístas e fechados em suas certezas, conservadorismo e reacionarismo predominando na ‘veia’ numa novela muito tempo planejada, mas que frustrou grande parte do público e da crítica, especialmente pelo seu estilo narrativo considerado anacrônico por muitos. A crítica da revista Veja, por exemplo, chegou a qualificar os figurinos vestidos pelos atores da novela como semelhante ao usado “nos tempos de antanho” (nem sei bem o que é isso, mas concordei e aprovo, porque achei a maioria dos figurinos realmente horríveis, fora de moda, fora de lógica e fora da realidade, parecendo mais com os de uma peça teatral circense ou do gênero besteirol contemporâneo). Excesso de discursos políticos ineptos, lamentosos e chorosos, nos diálogos, repetindo os erros anteriores do mesmo autor nas superestimadas novelas RENASCER (1993), O REI DO GADO (1996-1997) e TERRA NOSTRA (1999-2000), que só não entraram nessa segunda lista, porque não exageraram tanto nos figurinos extravagantes, e por isso ainda mantiveram alguns bons aspectos de realismo;
4- PARAÍSO (Globo, 2009) – a carolice da personagem beata Mariana (Cássia Kiss) é de um anacronismo sem precedentes, pois nem na versão original de 1982 este detalhe ficou tão evidente [mesmo tendo assistido a telenovela inspiradora, e portanto (ou seja) conhecendo um fato atenuante: o de que talvez o casal protagonista da primeira edição tenha sido mais carismático, justamente pelo inusitado da trama novelesca] ou tratado com tanta pompa, destaque e seriedade; e
5- AMÉRICA (Globo, 2005) – se formos considerá-la uma novela urbana, ficam evidentes os delírios fantasiosos no que diz respeito ao deslumbramento e às obsessões da protagonista em relação ao seu desejo de emigração do Brasil e à rejeição às oportunidades que seu país natal poderia lhe oferecer; e da mesma forma, se formos tomá-la como uma novela rural, o destaque principal evidencia, sem sombra de dúvida, uma trama que defende, em situação de claro desequilíbrio, a plena subserviência ou adesão irrefletida à cultura e aos ideais norte-americanos. De modo geral, na minha opinião, esta novela, que é bastante lembrada por ter sido ambientada no Brasil e nos Estados Unidos, e também no México, se confundiu demais com uma imensa propaganda/peça de glamourização do universo das feiras e rodeios agropecuários, travestida de folhetim cosmopolita. Por tudo isso, como novela rural América deixou muito a desejar.

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