15 NOVELAS BRASILEIRAS QUE TIVERAM SUAS ABERTURAS MODIFICADAS NO DECORRER DE SUAS EXIBIÇÕES

O icônico modelo e ator Vinícius Manne, que apareceu pelado, “nu com a mão no bolso”, em pelo menos duas versões das oito diferentes aberturas da novela Brega & Chique (TV Globo, 1987), sendo que seis outras opções foram editadas para atender às modificações sugeridas e impostas pela interferência conservadora da censura estatal da época. As duas opções iniciais, planejadas para a novela, finalmente prevaleceram a partir do quinto capítulo e, a partir daí, foram exibidas, de forma alternada, até o final. [Foto TV Globo – reprodução]

 

TE CONTEI? (Globo, 1978): 


A abertura embalada pelo rock contagiante e empolgante “Te Contei?”, interpretado pela cantora (one hit wonder) Sônia Burnier, retratava encontros sociais animados nas ruas e nas praias do Rio de Janeiro, num clima de fofoca saudável e descontração da juventude carioca da época. A abertura pegou bem o clima extrovertido e popular das novelas escritas por Cassiano Gabus Mendes, que contou com uma concepção de abertura em absoluta sinergia com a sua sinopse e com o desenvolvimento da história, assim como havia ocorrido em Locomotivas, dois anos antes. As vinhetas de “Estamos Apresentando” e de “Voltamos a Apresentar” e a versão para o encerramento, no entanto, apresentavam outras cenas adicionais ambientadas numa central telefônica da época, com uma enormidade, um verdadeiro emaranhado “pré-jurássico” de fios e cabos manejados por uma telefonista profissional ágil e sagaz, representada por uma modelo;
 
 

O HOMEM PROIBIDO (Globo, 1982):

 

Ao constatarem que havia na novela praticamente uma “overdose” na novela da utilização da música de abertura “Queixa”, de Caetano Veloso, que era também utilizada como tema de fundo de seus protagonistas, optou-se por mudar a abertura, apresentando uma nova versão apenas instrumental da referida canção. Ou seja, a primeira versão da abertura trazia a música original cantada, que rapidamente tornou-se popular, mas já saturando o gosto dos telespectadores. Então, nos moldes de BAILA COMIGO (Globo, 1980/81), que utilizou desde o seu início uma versão instrumental de uma faixa homônima de grande sucesso popular de Rita Lee, buscou-se novamente o instrumental, dando assim um tom de sofisticação e dinamismo à apresentação da novela escrita por Teixeira Filho;

 

PARAÍSO (Globo, 1982-1983):

 

A mudança constatada deu-se lá pela metade da novela aproximadamente. O que ocorreu foi apenas a inserção curta, porém impactante, de uma cena que fez parte dos capítulos iniciais da novela, de autoria de Benedito Ruy Barbosa. A cena acrescentada apareceu, então, próxima ao final da abertura, e é a parte do rodeio em que o peão José Eleutério (interpretado por Kadu Moliterno) aparece montando um touro brabo, que esperneia e escoiceia pela arena, ao ser domado pelo ator e personagem da novela. A cena foi utilizada porque, de fato, ficou belíssima, próxima à perfeição, e muito provavelmente deve ter sido feita dispensando-se o uso de dublê. A mudança proporcionou uma sensação de maior agilidade e empolgação para a música-tema já repleta de entusiasmo e energia, e uma bela melodia: “Promessas Demais”, cantada por Ney Matogrosso;


BREGA & CHIQUE (Globo, 1987): 

Confira o vídeo de abertura da novela BREGA & CHIQUE no site YouTube, nos links abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=9g2IVU-R6X0  e

https://www.youtube.com/watch?v=gv6KFS_agws

 

O SALVADOR DA PÁTRIA (Globo, 1989): 


A mudança foi bastante sutil, porém não passou despercebida. Na primeira versão veiculada, o tratorista ator figurante que aparecia lá pela metade da abertura, tinha uma longa barba, fato que deu motivo para que alguns críticos ferozes da imprensa brasileira pudessem interpretar que a novela, incluindo a sua abertura, estaria fazendo apologia à candidatura de então presidenciável Lula, candidato do PT à presidente da República. Assim como o enredo da novela, de autoria de Lauro César Muniz, a abertura, assinada por Hans Donner, também foi rapidamente modificada, trocando-se o figurante barbudo por outro motorista imberbe, também representando um motorista de trator e trabalhador rural. O detalhe curioso da história brasileira é que o também candidato presidenciável, Fernando Collor, igualmente imberbe, assim como o ator figurante da abertura de O Salvador da Pátria, foi o vitorioso das eleições presidenciais em novembro de 1989, enquanto que o ator barbudo foi “gentilmente” descartado ou dispensado de seu trabalho, abreviando ou sabotando talvez uma trajetória que poderia quem sabe ter sido feliz e frutificar. Teria sido preconceito contra os homens que mantém barba? Ou teria sido só uma defesa “superior” de uma opção estética pessoal mais “limpa” de uma figura moldada a inspirar a justa cidadania e criada ficcionalmente para exercer a sua autonomia individual e o seu senso de liderança? A dúvida, desde que foi feita a alteração de conteúdo, permaneceu no ar e na cabeça dos telespectadores globais fãs e apreciadores da novela O Salvador da Pátria;

 

PACTO DE SANGUE (Globo, 1989): 

Como a novela de autoria de Regina Braga foi toda pré-gravada, a sua abertura original talvez também tenha sido feita de modo apressado, já que apresentava uma seleção de frames e quadros ilustrativos de cenas de época, porém ao longo da novela, diversas cenas surpreenderam pela plasticidade e pela beleza estética. Junto com o mesmo tema instrumental, optou-se, então, por uma nova abertura com cenas impactantes de toda a extensão da novela, que a partir de quadros pintados (ou imagens congeladas/estilizadas) transformavam-se em imagens em movimento, trazendo maior dinamismo e agilidade à abertura e, por consequência, à novela;

 

TIETA (Globo, 1989-1990, mudança ocorrida somente na reprise em 1994-1995, na exibição da seção Vale a Pena Ver de Novo):

 

Confira o vídeo de abertura da novela TIETA no site YouTube, no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=HkjkLCKh6Yo

Infelizmente, não foi possível encontrar nenhuma versão modificada da abertura de TIETA, apresentada na reprise do Vale a Pena Ver de Novo, em 1994-1995.

Os diretores e programadores da TV Globo, alegando que o horário do Vale a Pena Ver de Novo, então transmitido às 13h30, era formado por um público majoritário composto por crianças e adolescentes, decidiram que não era mais possível apresentar da forma original a belíssima abertura de TIETA, protagonizada pela então modelo Isadora Ribeiro (que ao final da novela também se tornou atriz e, inclusive, participou do último capítulo) com os seios e o corpo (colorizado em estilo de penumbra) desnudos. O belíssimo trabalho do designer Hans Donner, inspirado pela primorosa adaptação de texto de Aguinaldo Silva da obra original de Jorge Amado, teve então a exibição dos caracteres dos créditos de elenco e produção apresentados de forma contínua, encobrindo assim a aludida “perigosa” nudez feminina aos bons costumes. Até o público conservador estranhou tanta cautela, mas mesmo assim prestigiou a reprise da novela, como em poucas ocasiões, como também a sua nova abertura costumizada;

 

PANTANAL (Manchete, 1990; a mudança deu-se somente na reprise de 2008, pelo SBT, portanto outra emissora produtora e exibidora / com a veiculação de uma abertura inteiramente nova e com imagens e recursos ilustrativos diferentes): 

A abertura original contava uma historinha absolutamente coerente, algo ousada e bastante de acordo com a trama de autoria de Benedito Ruy Barbosa, e caprichou nas cenas de nudez artística da modelo Nani Venâncio, na ocasião representando a protagonista Juma, vivida nesta versão original pela atriz Cristiana Oliveira. Após a decretação de falência da TV Manchete, produtora e exibidora do folhetim original, o acervo de fitas que compunha o conjunto de todos os capítulos do folhetim, que já havia sido reprisado em duas ocasiões pela Manchete (sendo a primeira logo em 1991-1992, e a segunda em 1998-1999, durante o período da própria decretação de falência da emissora, quando esta teve que ceder sua concessão para a Rede TV!, que manteve a reprise da novela até o seu final), foi adquirido pelo SBT, que numa manobra bastante ardilosa e algo suspeita, passou a reprisar a produção da Manchete, tendo direitos assegurados inicialmente apenas em relação ao acervo físico e não a novos direitos de exibição. No entanto, o Poder Judiciário concedeu decisão ao SBT para manter a reprise no ar. A nova reprise da novela pela SBT, no entanto, talvez temendo novos processos judiciais e para preservar a sua imagem de “televisão familiar”, muita divulgada na época, utilizou-se de uma nova abertura, inteiramente refeita e que se resumiu numa animação reconhecidamente criativa e bela esteticamente (incluindo uma rápida participação da modelo Glenda Santos), mas que “não chegou nem aos pés” da abertura original, que recebeu inclusive diversos prêmios nacionais e internacionais;

 
 

AMAZÔNIA/AMAZÔNIA PARTE 2 (Manchete, 1991/1992): 


Com o pretexto de “salvar” a novela épica-ecológica da TV Manchete, a “menina-dos-olhos” da segunda rede de TV brasileira surgida nos anos 1980 a fazer história na teledramaturgia, de autoria de Jorge Duran e Regina Braga, considerada confusa e equivocada por parte da imprensa e do público televisivo brasileiros, de um eminente fracasso, foi convocada para a sua direção a renomada cineasta Tizuka Yamazaki, que rapidamente sugeriu um relançamento da novela, sendo que para isso encomendou também uma nova abertura. Todavia, a novela sofria campanha acirrada de grande parte da imprensa brasileira, que via e divulgava defeitos em praticamente tudo. Apesar das mudanças drásticas e dinâmicas, e dos esforços notáveis do seu excelente elenco, a audiência da novela não aumentou significativamente e foi encurtada. Mas, ainda assim, tanto a primeira como a segunda abertura teve os seus fãs, já que a novela foi bastante pioneira, mesclando elementos folhetinescos de várias novelas antecessoras, como o “bang-bang” Terras do Sem Fim (TV Globo, 1981-1982) e a novela espírita Além do Tempo (Globo, 2015-2016). O tema da primeira abertura foi a canção “Eldorado”, da banda Sagrado Coração da Terra, com participação de Milton Nascimento; enquanto que o tema da segunda foi a música instrumental “Casa das Andorinhas”, de Egberto Gismonti;


 

A INDOMADA (Globo, 1997 / mudança ocorrida na metade da novela; e nas reprises: em 1999, na seção Vale a Pena Ver de Novo; e em 2018-2019, no canal Viva): 

A abertura original trazia uma bela edição de imagens estilizadas, reproduzindo uma corrida em plantações e cenários rurais e superação de obstáculos numa figura humana que, a partir de recursos de computação gráfica reproduzia as feições da atriz (que na época serviu de modelo) Maria Fernanda Cândido, que pouco mais adiante iria estourar no cenário artístico da teledramaturgia brasileira com a personagem Paola, de Terra Nostra (Globo, 1999-2000). Na abertura de A Indomada, Maria Fernanda fazia a representação da protagonista da novela, Lúcia Helena, vivida pelas atrizes Leandra Leal (na fase adolescente) e Adriana Esteves (na fase jovem). As cenas eram embaladas pelo frevo “Maracatudo” do músico Sérgio Mendes e sua aclamada banda internacional. O autor do folhetim, Aguinaldo Silva, no entanto, não gostou do resultado, apesar do dinamismo e agilidade, tanto que pediu para trocar a música e, já na metade da novela, e também nas reprises, a música foi trocada para “Unicamente”, da cantora Deborah Blando, balada de pegada mais pop e swingada, que também se tornou talvez o maior hit da trilha sonora, como o tema principal da protagonista Helena jovem;


TORRE DE BABEL (Globo, 1998-1999): 

 Confira o vídeo da primeira abertura da novela TORRE DE BABEL no site Dailymotion, no link abaixo:

https://www.dailymotion.com/video/x2lv91e

E aqui, o link da segunda, disponibilizado pelo YouTube:

 

VILA MADALENA (Globo, 1999-2000):

 

A novela de autoria de Walther Negrão, ambientada no bairro paulistano de Vila Madalena, não apresentava uma única abertura, mas 14, que eram formadas por todos os clipes oficiais das músicas que compunham a sua trilha sonora nacional. A cada dia, ou seja, a cada capítulo alternava-se uma abertura diferente montada em cima dos clipes selecionados, que serviam de abertura, de vinhetas e também do encerramento. Tiveram destaque, entre outras, as aberturas com os clipes de “Tô saindo”, de Ana Carolina; “LS Jack”, da banda LS Jack; “Aquilo”, de Lulu Santos; “Paciência”, de Lenine; “Certas Coisas”, de Milton Nascimento; e “Profecia (Fim do Mundo)”, de Xuxa. Uma opção de abertura ao estilo MTV;

 

ESTRELA-GUIA (Globo, 2000-2001 / A mudança ocorreu somente na reprise pelo canal Viva, em 2019):

Infelizmente, não foi possível encontrar nenhuma versão da abertura modificada de ESTRELA-GUIA,  apresentada pelo canal Viva, em 2019.

A abertura retratou uma sucessão de imagens abstratas e psicodélicas que procuraram retratar o estilo de vida hippie seguido por boa parte dos personagens principais da novela, ao som de uma regravação da canção “Imagine”, famosíssima canção popular de autoria do aclamado cantor John Lennon (1940-1980), ex-Beatles, na voz e regravação do cantor brasileiro Paulo Ricardo, ex-RPM. A primeira exibição original da novela, de autoria de Ana Maria Moretzsohn e protagonizada com muito boas expectativas (e marcando a sua estreia como atriz de telenovelas) pela cantora Sandy. Com a cotação e o anúncio da reprise pelo canal Viva, em 2019, no entanto, a empresa Downtown Music Publishing, administradora dos direitos de execução e reprodução de “Imagine”, reclamou o então descumprimento das leis de direitos autorais. Dessa forma, conseguiu a mudança da música de abertura original (por Paulo Ricardo) para uma canção instrumental, anteriormente já gravada pela Som Livre e inserida na abertura da novela na sua versão internacional, comercializada e exibida em diversos países estrangeiros logo após concluída a produção da novela no Brasil;

 

MULHERES APAIXONADAS (Globo, 2003): 

 

A abertura da novela, que se tornou um dos maiores sucessos de Manoel Carlos, se utilizava de fotos e fotomontagens de telespectadoras e telespectadores, nas quais foram retratadas situações apaixonadas e apaixonantes, num trabalho colaborativo inédito, promovido e incentivado por vários programas diurnos da emissora, dentre os quais o Mais Você, com Ana Maria Braga e o Vídeo Show. Inicialmente a cada mês, e logo a seguir, a cada 15 capítulos novas fotos, geralmente de encontros, viagens, confraternizações e celebrações familiares, eram recebidas, escolhidas e selecionadas, resultando em novas colagens, num trabalho artístico primoroso. Acabou que se tornou um modelo clássico de uma das aberturas mais inspiradas das novelas da TV Globo, inspirando inclusive novas vinhetas e ilustrações criativas levadas ao ar também, por ocasião das reprises no Vale a Pena Ver de Novo, em 2008-2009, e no Canal Viva, em 2020-2021, e chegando-se ao fato que se torna quase impossível, ou dificílimo para que não tiver a disponibilidade ou o acesso a  informações precisas da TV Globo, de contar e registrar quantas aberturas no total foram feitas e apresentadas. Todas ao som de “Pela luz dos Olhos Teus”, de Tom Jobim e Miúcha (anteriormente também apresentada como tema de abertura da novela Dona Xepa, pela Globo, em 1977). Nesse sentido, pode-se afirmar que a abertura de Mulheres Apaixonadas realmente fez escola e sua opção por colagens é um modelo de sucesso de abertura copiado até hoje;

  

AMÉRICA (2005): 

Uma das aberturas de novelas que, talvez, tenha causado mais divergência entre os seus idealizadores em toda a história da teledramaturgia. Haviam, entre a equipe de criação, concepções diferentes em relação à trama, basicamente, e este foi um dos motivos alegados para uma suposta crise nos bastidores da novela. O diretor dos 25 capítulos iniciais da novela Jayme Monjardim preferia um estilo de direção mais séria, romântica e épica, e por consequência também uma abertura mais dramática e clássica. Já a autora da novela, Glória Perez, preferia outro estilo de direção, e consequentemente outra opção de abertura, ou seja, mais animada, solar, alegre e dinâmica. As visões divergentes do diretor e da autora titular acarretaram na realização de um começo de novela um tanto descontínuo e hesitante, e uma abertura algo soturna, ao som de “Órfãos da Terra”, de Milton Nascimento e banda Sagrado Coração da Terra. Rapidamente, a autora fez prevalecer a sua concepção dramatúrgica da novela de sua autoria. O diretor Monjardim acabou se deligando da novela e assumiu outros projetos na emissora. Em seu lugar assumiu o diretor Marcos Schechtman, que concordou com os novos conceitos estéticos defendidos pela autora. Ambas as aberturas apresentavam imagens e cenas emblemática das tramas e trajetórias cênicas dos protagonistas da novela: Sol (Deborah Secco) e Tião (Murilo Benício), que acalentavam o sonho, principalmente ela, de imigrarem para os Estados Unidos da América. Ambas traziam imagens dos atores mirins dos capítulos que mostraram as infâncias dos dois personagens, bem como destes personagens como adultos, e mais imagens e cenas de rodeios, e de várias locações que foram cenários da trama, tais como Rio de Janeiro, interior do Mato Grosso do Sul e São Paulo (em cidade que retratavam o universo country), o deserto do Parque Nacional de Big Bend, vilas mexicanas que fizeram as vezes das margens do lendário rio Grande no México, cidades americanas do Texas, e logo em seguida, emd Miami e Nova York. A versão que prevaleceu na novela, já que foi a que teve mais tempo no ar, foi a que teve como tema musica a música “Soy loco por ti, América”, um antigo sucesso composto por Caetano Veloso, na interpretação da cantora Ivete Sangalo.



 

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