PRODUÇÕES DE ESTILOS SEMELHANTES E ANTAGÔNICOS À ESTÉTICA DA NOVELA "PANTANAL" (TV & CINEMA) – I:
A versão atual de Pantanal tem como adaptador do roteiro original Bruno Luperi, neto do autor Benedito Ruy Barbosa; os capítulos iniciais, rodados em grande parte no Mato Grosso do Sul, tiveram a direção geral de Rogério Gomes | Arte do Logotipo e Fotos: TV Globo
A grande sensação da teledramaturgia deste início de ano foi, sem sombra de dúvida, a estreia, em 28 de março, da nova versão de Pantanal, considerado um verdadeiro clássico da teledramaturgia, concebido e produzido pela TV Manchete em 1990. A novela, tida pela maioria da crítica especializada em televisão e cinema como um marco altíssimo, e até mesmo inquestionável, de renovação da teledramaturgia nacional, por mais de três décadas alimentou o imaginário dos seus fãs e manteve acessa a esperança por uma retomada das histórias do interior brasileiro, do universo rural ou sertanejo preponderante, com uma “pegada” mais lenta e ecológica. Agora, finalmente o texto repleto de “causos”, dramas românticos e histórias comoventes, criado pelo autor Benedito Ruy Barbosa volta à cena, adaptado e super produzido pela azeitada indústria de telenovela da TV Globo, e mais uma vez tendo a natureza como uma das principais atrações.
As boas impressões e números iniciais da audiência de grande parte público já comprovam a intuição feliz e certeira da Globo, antes de qualquer outro comentário. Porém, pessoalmente não intenciono debater com a crítica, ou mesmo com qualquer telespectador, leitor, internauta ou digital influencer, a questão mais controversa que diz respeito à telenovela Pantanal, referindo-me tanto a versão original como a atual: "a obra de Benedito Ruy Barbosa realizada em 1990, que está sendo refeita em 2022, é ou não um marco da teledramaturgia?". Penso e tenho a seguinte opinião sobre esta famosa pergunta: SIM, para grande parte do público, mas, NÃO para outra parte.
Fato incontestável: não há unanimidade neste assunto. Tanto houve
a consagração do autor e de toda a equipe da produção original, (com altos
números de audiência e uma ampla e numerosa premiação da crítica da época,
raríssimas vezes repetidas por outra produção televisiva nas décadas seguintes),
como também houve ferozes e incisivas críticas, especialmente ao texto do autor
e à concepção estética do diretor geral original Jayme Monjardim. Nada que
abalasse o talento e o prestígio de ambos, porém todas aquelas críticas
pertinentes deixaram uma grande certeza: Pantanal
(1990) foi sim um diferencial do padrão estético da teledramaturgia
brasileira, vigente nas décadas de 1970 e 1980 especialmente. Foi também uma alternativa de programa de ficção de qualidade, uma vez que mais ou menos dois anos antes, os brasileiros haviam assistido a uma briga ridícula e patética pelos direitos de exibição dos filmes trash e de ultra violência genocida da famigerada cinessérie "Rambo", entre o SBT e a Globo. Considerando tudo isso, não
há dúvidas: havia o reconhecido padrão Globo de teledramaturgia, uma situação da TV Globo bastante tranquila em relação a sua audiência consolidada, e, com a obra de Benedito Ruy Barbosa foi criado, mesmo que
tenha tido uma curta duração, o padrão Manchete de telenovelas.
Muitas das críticas de ontem possivelmente serão as mesmas de hoje: certos diálogos e "silêncios", que simbolicamente (e, às vezes, explicitamente, promovem a sacralização de um tipo de patriarcado oligarca, grileiro, tóxico e sexista; a dicotomia ou bipolarização falaciosa ruralidade/rusticidade X urbanidade/delicadeza como um aspecto de caracterização de boa parte dos personagens, de forma clichê e recorrente (e segundo o adaptador, Bruno Luperi, a essência da história será mudada o menos possível); o ritmo lento e contemplativo, bastante destoante das narrativas mais comuns da televisão; etc.
Já em relação à abordagem das profissões de agricultor e agropecuarista, percebe-se tanto na versão de 1990, como na atual, uma cuidadosa atenção pelos autores, por vezes até didática, porém louvável até certo ponto (torcendo para que as tramas da novela não tornem essa abordagem algo demasiadamente empostada, sectária e discursiva)... Sobre a defesa da Ecologia, em sintonia com o pensamento evidenciado pelos personagens e histórias da telenovela, certamente haverá uma enorme torcida a favor (as próprias cenas da fauna e da flora sul-mato-grossense, da exuberância da natureza pantaneira, tudo soma pra isso), e um misto de satisfação e orgulho ser brasileiro, tal e qual o “soft power” conquistado, difundido e celebrado com ternura por Anitta.
Com uma divulgação eficiente e minuciosamente planejadas, todas essas expectativas, receios e perspectivas deverão ser equacionadas e os telespectadores, por certo, deverão reconhecer o esforço em produzir ficção de qualidade e o bem vindo e saudável interesse da TV Globo em dialogar e contar histórias do interior do país. Ao valorizar os universos rural e urbano, a modernidade e a tradição, a TV Globo, por certo, deseja que essa nova versão de Pantanal, consiga divertir, emocionar, refletir e aproximar os brasileiros, mais do que polarizar, mistificar ou criar ranços e aversões à teledramaturgia contemporânea.
E pensando também em todas essas diferenças conceituais da teledramaturgia, decidi sistematizar uma breve e prolongada, porém sucinta pesquisa, já feita por vários veículos da imprensa brasileira, como por exemplo, as revistas Veja, IstoÉ e Contigo!, na década de 1990. A partir de várias referências, e até o final do ano atual, pretendo publicar no blog TRAMAS & TRILHAS, além de uma postagem diversa a cada mês, o resgate de 20 produções (da TV e do Cinema) de estilos semelhantes e antagônicos à estética da novela Pantanal, versão 2022. A cada postagem temática sobre este assunto, serão duas produções resgatadas, sendo a primeira de estilo estética semelhante e a segunda de estilo antagônico.
Esta lista se destaca, porque, na minha opinião, uma das funções da arte, é justamente dar voz e espaço ao contraditório, portanto à reflexão. Lembrando que não farei juízos de valor, ou seja: acredito que tanto as produções mais similares à atual novela das nove quanto as mais opostas têm incontáveis méritos, muitas vezes contraditórios, claro, mas sempre, como boas obras de arte, apresentam inúmeras nuances e pontos de consenso, conciliação ou congruência. Constam também nesta lista algumas obras anteriores do próprio autor Benedito Ruy Barbosa, sendo elas destaques importantes e relevantes de sua trajetória. Confira todas estas 20 referências históricas da teledramaturgia e do cinema que explicam o sucesso texto de Pantanal. Deixe seu comentário, caso gostar do assunto. E até a próxima semana!
Luís Carlos Festl
PRODUÇÃO DE ESTILO SEMELHANTE:
- Novela PARAÍSO (1982/1983, TV Globo): Autoria: Benedito Ruy Barbosa; Direção: Gonzaga Blota e Ary Coslov; 18 hs; 195 capítulos.


































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